Bem-Vindo Errante Viajante

Do Olimpo trago a almejada chama, da qual sugiro dançarmos embriagados a sua volta, e quando assim for, sujiro arriscar tocá-la, pois, felizes os que dela se queimarem.

domingo, 14 de abril de 2013

RPG: Aventuras em Yrth - Saga dos Bravos de Orion - Katabrok - Parte 1


Katabrok, O Bárbaro.
Natural da Terra dos Nômades (Continente de Ytarria).
Nascido sobre o signo de Áries
Ofício: Guerreiro Mercenário

Prólogo de um Herói – A herança de uma paixão em pedaços.


Ilustração por Guangjian Huang:
Hukey, príncipe guerreiro da tribo nômade Inggius.
Há décadas atrás os Inggius - uma tribo nômade de valentes e honoráveis guerreiros -, foram praticamente extintos da face do continente quando a mesma conquistou a animosidade de várias outras tribos irmãs por violação de regras em uma competição de habilidades realizada há gerações entre os povos que habitam a região norte de Ytarria, conhecida como o Território Nômade, local selvagem e pouco inóspito que se estende além dos Picos Nevados em direção ao mar. Nessa ocasião, a Casa dos Elludurs era quem recepcionava as quinze grandes tribos oriundas de todos os cantos desse fantástico reino.

Ao longo dos dias em estadia na Casa dos Elludurs, ocorreu algo inusitado, o príncipe e campeão dos Inggius, Hukey conhecera e se apaixonara perdidamente por Edallya, era uma mulher belíssima e de encanto ímpar. Mais velha que o príncipe alguns anos, cujos olhos eram de uma tonalidade azul profundo penetrante, extremamente lasciva, cuidadosamente delineada em cada uma das curvas de seu corpo e de suas feições. Era ela também uma das concubinas preferidas do rei anfitrião – Kallous -, e mãe de um de seus oponentes na competição entre as tribos, o príncipe Darleontras. Contudo, esse sentimento de ardente paixão desperto no âmago do príncipe dos Inggius também fora reciproco por parte da mulher do rei dos Elludurs. Embora, ambos tivessem conhecimento do quão arriscado era a experiência dessa tórrida relação, nenhum dos dois fazia questão de abdicar dos encontros noturnos, dos beijos, carícias e das prazerosas relações carnais.

Conforme a competição seguia, o único pedido de Edallya para com Hukey fora de que ele poupasse a vida de seu único filho quando estes se enfrentassem em combate. O príncipe dos Inggius sabia que tal pedido era arriscado e pouco descabido de juízo, sobretudo, conhecendo a fama de mal perdedor da prole de sua amante, mas ainda sim, prometeu ao ouvido dela enquanto se deixava envolver-se pelos tórridos encantos consumidos em devasso leito.

Bel-prazer dos Reis, Reviravolta e Morte.


Ilustração por Erik Von Lehmann:
Edallya, concubina do Rei dos Elludurs
e amante do príncipe campeão dos Inggius, Hukey.
Em dado momento, próximo às etapas finais da competição, a mesma teve uma reviravolta repentina com a ascensão de Querza, príncipe campeão da Tribo dos Zágoras. E esse fato fez com as disputas fossem revistas pelos reis e conselheiros, a fim de tornarem aquele momento mais satisfatório para todos, uma vez que, já havia entre os reis uma sutil certeza de que os Inggius seriam os campeões daquele ano. Portanto, o quadro de disputas foi alterado, e, para alívio imediato de Hukey, Darleontras fora designado para enfrentar Querza. Contudo, o príncipe dos Inggius naquela mesma noite em seu encontro com Edallya, ouviu as lamúrias de sua amante e o clamor desmedido para que ele intervisse junto aquela determinação, e, novamente, ele voltou a fazer uma promessa da qual provavelmente não seria capaz de cumpri-la, sobretudo, em se tratando de uma decisão uníssona de reis e anciões de cada uma das quinze tribos.

Embora, Darleontras dos Elludurs fosse tido como um mal perdedor – para leve desgosto do pai, Kallous -, nada se comparava a fama cruel de Querza dos Zágoras, um guerreiro legitimamente violento, sanguinário e traiçoeiro, tal como a grande maioria dos membros de sua tribo. E, este era o maior temor de Edallya, principalmente, ao vê-lo em combate por diversas vezes, ainda que obrigada por estar na companhia do rei do anfitrião.

Ilustração por Mon Ashk:
Darleontras, príncipe campeão dos Elludurs, e,
filho único da rainha Edallya com o Rei Kallous.
Estranhamente todos os oponentes do príncipe Querza passavam por algum tipo de depressão pós-batalha. Uma enfermidade que fazia com que eles seguissem avessos a claridade, apáticos a quase tudo, silenciosos, amedrontados, e sem apetite. Algo que no fundo do coração de uma mãe, como Edallya, não soava somente como uma experiência traumática de uma batalha perdida, mas como algo muito além, e, que provavelmente fosse suficientemente sórdido e proibido pelas regras daquela competição.

Para a maioria dos reis e conselheiros a enfermidade pela qual os príncipes derrotados por Querza passavam não era nada mais do que um sentimento de orgulho ferido, sobretudo, em se tratando de uma competição a qual haviam se preparado por um longo tempo de suas vidas e que tinha o poder de elevar a posição de suas casas em meio às demais tribos, além de angariarem um apreciado dote, que incluía: alimentos, escravos, armas e tesouros. Porém, nem todos concordavam em relação a esse estado doentio dos vencidos, e, um deles era Hukey dos Inggius, que mudou radicalmente o seu pensamento ao desconhecer completamente um de seus amigos aplacado por tal lástima.

Hukey tentou junto ao seu pai - o rei Minorth -, e com aos anciões de sua tribo, para que os mesmos reconsiderassem a batalha dele com o príncipe dos Zágoras, contudo, o senhor dos Inggius foi ríspido em dizer que o que fora decidido no conclave dos chefes das tribos era sagrado, e, nada mudaria. Essas palavras já eram mais do que esperadas em seu intimo, pois, os líderes e todos os demais envolvidos não voltariam à palavra, exceto se algo de muito grave viesse a tona capaz de alterar os desígnios dos deuses.

Como o príncipe dos Inggius não conseguiu favorecer o filho, Edallya preferiu não ter outros encontros com o seu amante até que o combate entre seu filho e Querza ocorresse, e, o príncipe dos Elludurs retornasse são e salvo para casa. No âmago do ser, o Hukey sabia que tal fato não ocorreria, e, que o pior estaria por vir para seu desgosto total, principalmente, dos eventos violentos que se sucederiam a este.

Ilustração por Adrian Smith:
Querza, príncipe campeão dos Zágoras,
temido pela sua ferocidade
e pujança no combate armado.
No dia do confronto entre os príncipes dos Elludurs e dos Zágoras, a maioria dos homens que ali estavam em volta da arena, assistiam as disputas de perícias entre os campeões com uma sutil atenção, pois, ela definiria quem enfrentaria o príncipe dos Inggius na grande final. Contudo, para Edallya e Hukey, dentre todas as etapas, a prova maior estava por vir, que era o combate armado, pois, embora, Darleontras tivesse vantagem sobre o seu oponente em caçada e conhecimento, o confronto direto era o que mais atribuía pontos as casas, e, nesse assunto, Querza surpreendera a todos até ali.

Quando o duelo armado iniciou, Querza partiu para cima de seu oponente como uma serpente arisca, analisando movimentos em frações de segundo e atacando com agressividade. Darleontras, por sua vez, sabia que o seu adversário era superior no combate armado, e, nesse ponto ele tinha duas opções: ser mais ardiloso e preciso; ou desarmá-lo e seguir com o confronto a base dos punhos em uma luta corporal. Porém, todos esses pensamentos táticos do príncipe Elludurs subitamente sessaram, quando ele se esquivou de um falso ataque e o campeão Zágora lhe infligiu um golpe fulminante de sua arma secundária (um punhal) na virilha esquerda, que empunhava em seu lado sinistro para ataques surpresas, e que revelavam a maestria de seu talento ambidestro, embora não o fosse verdadeiramente.

Quem assistia ao confronto urrou extasiado pela demonstração de habilidade do feroz guerreiro da tribo dos Zágoras, exceto o Rei Anfitrião, seus súditos, e Hukey. Contudo, Darleontras sentiu a afloração de uma letargia repentina em seu lado atacado, e, isso o fez descuidado. E, em sequência, Querza golpeou sem muita dificuldade com a sua espada longa lançando o filho de Kallous ao chão. Edallya, em prantos, gritou em direção à tribuna dos reis que o confronto fosse encerrado sem mais demoras.

Kallous, o Rei dos Elludurs, se pôs de pé e concebeu a vitória ao filho do Rei Barvaruk dos Zágoras, a fim de poupar seu filho de uma derrota ainda mais ultrajante para uma tribo anfitriã. O campão Zágora teve que se conter, pois, a sua intenção não era misericórdia, sobretudo, naquele estágio da competição. Os Elludurs assistiram calados, o corpo desfalecido, inconsciente e ensanguentado de seu campeão derrotado sendo posto sobre uma carroça, e, levado para fora da arena, na companhia de sua mãe que chorava copiosamente o segurando por uma das mãos.

Hukey que assistia o combate em uma área reservada aos príncipes analisou metodicamente o combate, e, percebeu que algo de muito estranho havia ocorrido, pois, ao receber o golpe do punhal de Querza, Darleontras aparentou confusão ao lidar com aquela situação trivial, sobretudo, em uma região do corpo a qual por muitas vezes foi ele propriamente golpeado, mas reagiu prontamente seguindo com o combate. Após aquela batalha, o campeão dos Inggius ponderou que a lamina do punhal do guerreiro Zágora estivesse consagrada a alguma divindade da morte ou dos maus presságios, e, que por sua vez, estivesse embevecida em veneno. Isso era uma funesta hipótese, mas que se fosse comprovada, com certeza, atrairia o rancor de todas as demais tribos envolvidas na competição haja vista que essa é uma prática proibida desde o fundamento dos jogos.

Naquela noite houve celebração, mas o rei anfitrião, Kallous não participou juntamente com os demais reis, preferiu se ausentar para ficar na companhia de sua esposa, aguardando um sinal de recuperação de seu filho. Porém, para as demais tribos, um farto banquete antecedia o confronto final a ser realizado na manhã seguinte pelos representantes das tribos dos Inggius e dos Zágoras.

Hukey tentou se aproximar discretamente de Edallya para tentar conforta-la de alguma maneira, mas ela o fulminou secamente em um olhar que ele mesmo a desconheceu. A rainha pediu que o filho não fosse perturbado naquele momento, e, que somente queria a presença dos curandeiros.

O príncipe dos Inggius resolveu por conta própria seguir uma sorrateira investigação a respeito da tal arma utilizada por Querza. Contudo, ele se deparou com alguns empecilhos, sobretudo, o seu status naquele instante dentro da sociedade das tribos nômades que participavam do evento. Por diversas vezes ele tentou se ausentar do meio festivo, mas foi requerida a sua presença, e, outra, estava constantemente sendo observado ou sendo cumprimentado por alguém. O tempo se esvaiu como água que corre por um ladrão, e, Hukey não pôde inquietar seus pensamentos que no elevar-se das horas noturnas pendiam exclusivamente para o seu destino no confronto que se sucederia em breve.

Muito antes de iniciar o confronto final, o rei Kallous trouxe a todos a notícia de que seu filho Darleontras estava vivo, e, que estava a se recuperar muito bem dos ferimentos do dia anterior. Isso aparentemente originou também certo alívio a mente de Hukey, mas sabia que essa boa notícia a respeito do príncipe Elludurs não era suficiente, ele precisava ver a sua amante e receber dela os votos de um bom combate. Para isso, o príncipe dos Inggius foi a procura de sua amada, ainda que essa não o quisesse receber, ele iria se impor a vontade dela.

Estranhamente Hukey não encontrou nenhum tipo de vigilância como a do dia anterior em frente a grande tenda do príncipe dos Elludurs, logo, não foi complicado para ele se desvencilhar dos guardas e chegar ao interior da mesma. No local, não encontrou ninguém, nem mesmo um criado, somente um pouco de sangue sobre o leito do príncipe, o que era lógico. Dali, ele seguiu para outras tendas, em busca de mais informações que pudessem leva-lo ao paradeiro de Edallya e de seu filho.

Na tenda das concubinas do Rei dos Elludurs, o príncipe Hukey, por intermédio de um servo eunuco, tomou conhecimento de que algo muito terrível havia acontecido na noite anterior: O rei Kallous havia assassinado o filho após uma recaída, e, Edallya estava sendo mantida prisioneira na grande tenda. E, antes que o príncipe viesse a partir para uma nova etapa de sua busca, ele foi surpreendido pelo tempo que já não dispunha, ou seja, precisava o mesmo retornar para a grande arena e dar inicio a batalha final.

Hukey estava possesso de ódio pela atitude macabra do rei anfitrião.

Um rito de sacrifício: Morte Zágora e Sangue Inggiu


A derradeira batalha era a única que exigia ao término da mesma uma finalização mortal no combate armado, exclusivamente por questões morais. Ao longo da competição, em estágios anteriores as finais, a morte seria algo opcional do combatente derrotado. Para tanto, o foço com profundidade de aproximadamente cinco metros que circundava a arena fora preenchido com água, pedras cortantes, lanças afiadas, e, nele atirado centenas de serpentes venenosas dos mais variados tipos e tamanhos que habitavam cantos do reino.

Infelizmente, aparentemente abalado pelas recentes notícias, Hukey dos Inggius foi vencido em duelos de habilidades por Querza dos Zágoras, onde a vitória seria clara se comparado aos desempenhos anteriores. Contudo, com o discorrer da competição, o filho do Rei Minorth, recobrou o juízo e a concentração, afastando de si preocupações que naquele momento não lhe seriam mais do que um fardo pesado a atrapalhar a sua conquista.

Quando o duelo de armas se iniciou, Querza que já se colocava como favorito a Campeão das Tribos Nômades, logo, foi surpreendido pela habilidade e disposição de seu oponente, o campeão dos Inggius. Hukey intencionou desarmar a mão com o punhal supostamente envenenado, mas, ao invés disso, ele conseguiu decepar o membro. O urro de dor do guerreiro Zágora só não foi maior do que euforia emanada da plateia com tamanha exibição de força e habilidade marcial. Com a mão esquerda amputada, o campeão dos Zágoras partiu para cima de seu oponente em um surto de violência, vociferando injúrias e sedento por sangue de seu adversário. Porém, o príncipe infelizmente, tal atitude não o favoreceu, e por mais uma vez ele foi golpeado por diversas vezes pela espada do príncipe Hukey.

O príncipe Zágora caiu próximo a sua mão mutilada, somente para recuperar o seu punhal, e, em um falso ataque arremessou a arma de maneira certeira no ombro direito de seu oponente.

Não tardou para que Hukey sentisse os efeitos torpes do punhal envenenado de Querza, embora ele ainda tivesse forças para arrancar o amaldiçoado item de sua carne e lança-lo diretamente no foço, tão logo, o príncipe sentiu os seus movimentos enfraquecidos, como uma letargia convulsiva a dominá-lo. O guerreiro Zágora caminhou lentamente e vacilante pelos ferimentos sofridos a pouco, em direção a seu opositor com um sorriso estampado ensanguentado, contudo, ficou perceptível a todos que a paralisia do campeão dos Inggius não era lógica.

Ilustração por Frank Frazetta:
Kallous, Rei da Tribo Nômade dos Elludurs,
e, anfitrião da Grande Competição.
O Rei dos Elludurs ao assistir da tribuna dos reis o desfecho do duelo, em seu inconsciente ponderou fatidicamente o quanto a sua esposa poderia estar certar em suas palavras ditas na noite anterior, e, pior, o maldito crime que havia cometido contra o próprio filho, algo que agora o esfolava as entranhas..

Antes que alguém pudesse encerrar o campeonato, Querza foi para cima de Hukey este por sua vez, se moveu com muita dificuldade em direção ao fosso. Com receio de que o guerreiro Inggius se lançasse ao precipício, ao invés de morrer por sua espada, o Zágora acelerou seus passos ao ponto de correr para intercepta-lo com um golpe de ponta. Entretanto, antes que esse último golpe fosse concluído, o filho de Barvaruk foi surpreendido com uma fecha atirada de fora para dentro da arena que lhe atravessou mortalmente a garganta. Como ainda corria, o corpo de Querza seguiu a trajetória como em um encontrão contra Hukey em direção ao mortífero fosso. Hukey já se precipitava em um último momento mover o corpo para o lado, a fim de, fazer com que seu inimigo fosse suficientemente descuidado para se lançar a armadilha, e, assim o fez, dada a oportunidade e com extrema dificuldade em função do veneno que dominava o seu corpo.

Querza inevitavelmente caiu no fosso que circundava a arena, selando o seu fim agourento. Nem todos que assistiam ao combate puderam perceber o momento em que o campeão Zágora foi alvejado fatalmente por uma flecha, contudo, houve uma eufórica comoção que se estendeu a quase todo o público quando puderam perceber que o príncipe Hukey ainda estava vivo e sozinho sobre o campo de batalha. O campeão dos Inggius fora também conclamado pela maioria dos representantes das Tribos Nômades que participavam do torneio, como O Grande Campeão.

Infelizmente o campeão dos Inggius não pôde participar das festividades em sua homenagem, pois, ele não estava bem de saúde. Hukey experimentou na pele o que todos os demais companheiros que enfrentaram Querza sentiram, inclusive, o filho de Edallya, a sua amante desaparecida. Em seu leito, no auge de delírios febris, o príncipe sussurrava e clamava pela presença de sua paixão proibida para surpresa e vergonha daqueles que zelavam por ele.

Aleivosias  para clamarem guerras além da arena. Para destronar um rei. Para extinguir um povo


Ilustração por Elshazam:
Bavaruk, Rei da Tribo Nômade dos Zágoras,
conhecida pela sua sede de sangue insaciável.
Mais tarde, naquela mesma data ao invés de uma grande celebração como de costume, houve um conclave emergencial com os representantes das quinze tribos que ali estavam. E nessa ocasião, o Rei da tribo dos Zágoras, Barvaruk, foi inquirido quanto as praticas de combate do filho morto, sobretudo, o momento crucial anterior a queda no fosso que fora assistido e questionado por muitos. Por sua vez, Barvaruk não julgou aquele o fato mais relevante a ser debatido naquela reunião, mas a identidade do responsável e a punição do mesmo por ter atirado a flecha que selou o fardo de morte do filho, Querza. A maioria dos reis estava propensa a conceber o título de Grande Campeão a Hukey dos Inggius sem mais delongas, porém, muitos fatos careciam de esclarecimentos.

O Rei Kallous concebeu permissão a Barvaruk e aos seus homens buscarem pelo assassino de seu filho, desde que não houvesse violência.

O Rei Minorth liderou um movimento juntamente com mais alguns reis de tribos coirmãs para investigarem se o campeão dos Zágoras não havia feito uso de técnicas e artifícios proibidos pelo regulamento do torneio. Embora, a princípio o Rei dos Elludurs houvesse concebido aval para esse trabalho, logo, ele foi obrigado a rever a sua postura, sobretudo, quanto o rei dos Inggius solicitou a presença dos príncipes combatentes que enfrentaram Querza para serem inquiridos. Tal atitude inesperada e controversa as suas palavras, fez com que uma ponta de suspeita sobre o rei anfitrião surgisse. O Rei Kallous se viu encurralado pela mentira que criou a respeito do filho, e, temendo o pior, preferiu fazer com que aquela situação tomasse um destino completamente diferente, mesmo que isso custasse a confiança de gerações e vidas inocentes.

Ilustração por Lucio Parillo:
Minorth, Rei da Tribo Nômade dos Inggius,
pai de Hukey e covardemente traído por Kakkous.
O Rei da Tribo dos Elludurs, com a ajuda de fiéis e inescrupulosos súditos, suplantou provas suficientes para incriminar os Inggius de terem tramado a vitória de seu campeão, inclusive o assassínio do filho de Barvaruk. O Rei Minorth, o príncipe Hukey e a sua comitiva nunca conseguiram deixar as terras de Elludurs vivos, foram massacrados um a um. Tendo as suas cabeças postas sobre grandes lanças no alto das tendas Zágoras.

Uma guerra sangrenta foi iniciada naquele ano de uma única tribo contra todo um reino, sobretudo, contra o povo de Bavaruk. Assim, os Inggius foram perseguidos pelos Zágoras e antigos aliados. O povo de Minorth teve suas terras saqueadas, suas mulheres violentadas antes de serem dizimadas juntamente com crianças, jovens e anciões. Pouquíssimos sobreviveram a essa marcha sangrenta, e os que conseguiram escapar se isolaram em regiões remotas e praticamente inabitáveis do grande reino nômade.

Edallya soube em seu cativeiro do destino de seu amante, e, lá mesmo por dias seguidos chorou abundantemente por todo o mal que havia assombrado a sua vida, e, de tantos outros inocentes. A rainha abandonada à própria sorte em seu cativeiro real precisou se recuperar para obter a vingança almejada pela morte de seu filho e de seu amado pelas mãos imundas e traiçoeiras de seu consorte.

Em campanha de guerra contra os Inggius o Rei Kallous ficou sabendo do nascimento de mais um filho por parte de sua esposa Edallya, não sabendo este, que essa criança era o fruto do amor de sua esposa com o príncipe morto, Hukey.

Uma destemida fuga para além de um destino traiçoeiro.


Ilustração por Nordheimer Brogan:
Siabelle, Amazona da Tribo dos Abbadius
feita escrava da concubina Edallya dos Elludurs.
O único temor que a concubina real tinha era de que os traços físicos da criança se assemelhassem ao do genitor, portanto, não esperou ela que tal suspeita viesse à tona por parte de suas concorrentes, ou de qualquer outro servo que conspirasse contra a sua felicidade. Antes de completar duas primaveras, a criança chamada Dramedon por Kallous, e, apelidada afetivamente de Ukka por Edallya, fora levada para longe de qualquer mão Elludur. Para realização de tal feito, a mãe teve de sacrificar o seu segredo, compartilhando-o com a sua mais leal serva, Siabelle, a quem solicitou guarda para o arriscado trajeto da tribo até além da Cordilheira dos Picos Nevados.

Edallya prometeu a Siabelle liberdade e recompensas materiais, caso a mesma conseguisse cumprir a jornada com os dois, contudo, sabia a guerreira feita serva comum de uma tenda de concubinas, que somente o fato de já se encontrar longe da tribo dos Elludurs já lhe propiciaria o status de liberta. No entanto, essa amazona trazia em suas veias o sangue quase extinto de uma tribo de guerreiros e guerreiras honrados, os Abbadius, e, que por tal motivo não desonraria a palavra dada.

A jornada para além das terras dos Elludurs foi algo repleto de desafios, todos previamente alertados por Siabelle, que embora não conhecesse a fundo o caminho a ser percorrido, possuía um faro apurado para circunstâncias perigosas, além de uma capacidade inata para sobreviver as mais adversas situações. E, esse espírito aguerrido fez com que Edallya depositasse em sua companheira de jornada plena confiança, sobretudo, em momentos cruciais de vida ou morte para ambos. Com o passar do tempo, um sentimento muito além de confiança despertou no âmago dessas duas mulheres, e, tão logo, elas passaram a experimentar de uma arrebatadora paixão, que as fez enamoradas a caminharem para um lugar onde pudessem ser felizes os três.

O Rei Kallous ao saber do sequestro de seu filho por parte de sua concubina esbravejou maldição aos quatro cantos do reino alertando a todas as tribos amigas da traiçoeira apunhalada que recebera. Ele não somente queria o seu herdeiro de volta em seus braços com vida, mas também a sua esposa e a sua serva. O senhor dos Elludurs queria pessoalmente infligir no corpo de cada um dos seus inimigos uma profunda dor que no além-vida eles ainda sentiriam os espasmos causticantes dos açoites mortais.

Nas elevadas terras gélidas do Rei Anão Thulin, as peregrinas conheceram de perto o mais mortal dos perigos ali existentes: o frio. Embora estivessem muito bem agasalhadas, de longe, as duas estavam preparadas para a intensidade do clima nos Picos Nevados, e, não tardou para que as mesmas sentissem as sequelas daquele afrontamento. Infelizmente, Edallya não resistiu as baixas temperaturas e morreu abraçada aos dois enquanto tentavam se proteger de uma das muitas nevascas que elas experimentaram em dias cruzando aquele bizarro deserto branco. Siabelle não pôde chorar por sua companheira, pois, não havia meios naquele momento, somente um grande lamento a lacerava por dentro. A remanescente da tribo dos Abbadius sabia que tinha uma missão incondicional: que era salvar o pequeno Ukka, e foi o que ela tentou fazer até o fim.

Dois dias após a morte de Edallya, Siabelle e Ukka puderam avistar além das montanhas horizontes mais calorosos do mundo de Ytarria, contudo, a guerreira estava muito debilitada, e, somente a visão de vida a fez com que desfalecesse extremamente exausta sobre o chão coberto de neve.

Collus Gramalt, um temido gigante do gelo que trafegava pelo local após uma caçada, se sensibilizou ao perceber que havia uma criança humana viva caída próximo ao corpo da mulher. Ele pegou os dois, e os colocou em suas costas juntamente com o corpo mutilado de um urso branco que havia acabado de caçar para sua refeição.

Siabelle acordou parcialmente com o cheiro da carne do urso sendo assada em uma fogueira que aquecia quase toda a grande caverna onde se encontravam, ali ela pôde perceber que o seu corpo estava coberto por pelo menos três peles pesadas de animais. Ela tomou um grande susto e despertou completamente, ao ouvir o gargalhar de Ukka vir por de trás de uma enorme criatura humanoide, de cabelos alvos e pele azulada. Em um canto do cômodo havia um enorme machado, e alguns ossos estilhaçados de diversas criaturas, muitas delas, humanoides de tamanho normal.

Ilustração por Chris Kuhlmann:
O Temido Gigante que habita os Picos Nevados
e principal opositor as invasões Mégalanas.
O gigante Collus Gramalt, ao contrário do que Siabelle esperava com base nas lendas que ouviu durante anos de sua vida, era uma criatura justa e sensata, e, embora houvesse inúmeros esqueletos de humanos e outras criaturas a enfeitarem o seu covil, ele não estava ali para ferir quem não o perturbava. E, enquanto ela se recuperava de sua enfermidade, a criatura propiciava asilo aos dois. Porém, os dias passaram e a amazona não se fortaleceu em saúde. Como saída o gigante convocou anões do reino de Thulin para ajuda-la. Assim que os pequeninos chegaram, eles tentaram de tudo que lhes era possível, mas em nada adiantou, as pernas da guerreira haviam congeladas de tal maneira que ela já não mais sentia as suas extremidades. Não tardou muito para que ela, abatida por sua incapacidade de seguir a vida, também viesse a falecer, resguardando, porém um último pedindo aos anões: que entregassem a criança aos cuidados de boas mãos para além das montanhas ao sul.

Os anões cumpriram o designado pela guerreira que foi hospede de Collus Gramalt, e levaram a criança até uma pequena vila humana, onde habitava um exímio ferreiro e ex-aventureiro, conhecido apenas como Ground.

Ilustração por Autor Desconhecido:
Ground, o ex-aventureiro e primeiro grande tutor
 de Katabrok em suas vidas de aventuras.
Ground em sua juventude fora um grande e habilidoso guerreiro, solicitado em muitas empreitadas. Uma lenda vida a caminhar sobre a terra, contudo, ao invés de requerer o conforto de uma vida de prazeres, palácios e inúmeros servos, o velho guerreiro preferiu abdicar de quaisquer coisas que pudessem afastá-lo de um desafio diário, para tanto, preferiu se aposentar de maneira digna: montou para si uma forja para confeccionar armas e armaduras. Pelo seu jeito turrão e difícil - que muito se assemelhava aos estereótipos do povo anão -, teve inúmeras companheiras, mas nunca uma capaz de tolera-lo por mais de um mês, portanto, ser solitário lhe convinha. Sua única companhia até antes da criança entregue pelo povo amigo de Thulin, era Gibralttar, um cão meio lobo.

Ground recebeu com espanto, e, extremo desconforto, o presente dos anões enviados por Collus Gramalt. Porém, a convivência fez com que o velho guerreiro experimentasse uma espécie de sentimento e combate do qual pensou nunca ser capaz de conduzir até o fim, e, que somente com a fortaleza de espírito que a paternidade requeria lhe foi possível superar. Nas mãos ásperas e pesadas do ferreiro, a criança sobrevivente passou a se chamar Katabrok, nome dado em homenagem ao pai que o ensinou no inicio da vida forjar destinos por meio da inestimável habilidade de sobreviver aos mais adversos perigos.

terça-feira, 19 de março de 2013

Aforismo: Exaltação do Ego em meio a pocilga

Ilustração por Omar Rayyan
Degenerados Enfermos
14.03.2013

Aterrador são as pessoas que gostam de exaltar aos quatro cantos suas características primorosas - ainda que subjetivas por um egocentrismo desmedido e abissal que os assola profundamente a alma. Estes mesmos costumam citar um apreço a vida capaz de sensibilizar multidões, de fazer seus ouvintes verterem lágrimas dos olhos por tamanha expressão de sentimentos, contudo, ironicamente, aqueles que falam demasiadamente de si são traídos por sua submissão a vilania. Nos bastidores, por de trás das cortinas, longe dos olhos de quem inflamam com belas palavras e gestos, são os tais carniceiros que se lançam a pocilga digladiando ferozmente por misérias. E se você ainda tem dúvidas, credes que eles também sangram, e, tão logo, são passiveis do abraço da morte.


Algumas pessoas que comungam desse tipo de prática ardilosa deveriam, em um tempo abreviado, sofrerem demasiadamente em resposta as suas ações malévolas, pois, seria no mínimo prazeroso para aqueles que sofreram em suas mãos, ter a visão de seus algozes declinarem em queda livre em um abismo sem fundo, serem rechaçados em humilhações, e a pagarem um preço desmedido. E ha quem me julgará: “Não reconheço meu amigo nessas palavras”, e, aqueles que o fizerem, pode ter certeza, nunca o foram de verdade. Declaro afeição aos meus amigos, amo verdadeiramente a companhia deles, compadeço de suas causas quando relacionadas e sinérgicas as minhas virtudes. Portanto, nisso reside deleite sim, e, não sou hipócrita ao ponto de negar, pois, quero os meus inimigos, todos eles sem exceção, mortos, mas muito antes da consumação desse fato, os quero enterrados em dor e sofrimento até o pescoço.

Quem convive com os porcos e se sujeita a comer lavagem na companhia dos mesmos, não é mais do que eles, senão iguais. Embora alguns que comunguem dessa pratica ainda tenham a ilusão delirante e absurda de que são melhores do que seus “moribundos” companheiros. Em meio ao lamaçal, esses valdevinos ainda possuem a capacidade surreal de justificar o ato como uma questão de socialização, e, nesse ponto faço minha as palavras de um amigo: “Socialização de Cú é rola, mermão!"

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Saga dos Bravos de Orion - João de Deus - Parte 2


Constituindo-se Mercenário, O Infausto Embusteiro

João de Deus percebeu com o tempo que o grupo de Heitor Ulbier não possuía uma fidelidade à altura das histórias que o próprio relatava para ele - enquanto líder -, haja vista que, alguns trabalhos eram dispendiosos demais e não justificavam a quantia a ser recebida. Embora, havia sim, alguns dois ou três fiéis, e, que com o tempo, o aprendiz de aventureiro conheceria muito bem dois deles, que são: Phartus, O Gêmeo e Alex Bartô, O Montanhês.

Além do Marquês Zimmerman, Heitor, possuía alguns outros clientes espalhados por quase todo o reino de Mégalos. Alguns destes eram arcanos que necessitavam de animais incomuns, e muitas das vezes, fantásticos, para a realização de seus trabalhos mágicos. E, sempre que estas tarefas surgiam, era comum no dia seguinte contar baixas na equipe, Alguns homens não tinham coragem de dizer na cara de Heitor que estavam lhe abandonando, pois, o líder era carismático e tinha uma língua afiada capaz de convencê-los do contrário, por tal motivo, optavam em desertar na calada da noite, geralmente após uma bebedeira desregrada, algo muito corriqueiro entre o bando.

Ilustração 01:
Phartus, O Gêmeo, nascido Meio Elfo,
  de natureza Bon Vivant, Impulsivo,
 e, ladino por profissão.
Phartus, O Gêmeo, era um meio-elfo, que aparentava ter pouco mais de vinte anos, contudo, ele possuía idade similar a de Heitor (por volta de 50 anos ou mais). Costumava levar tudo com muito bom humor, de tal maneira, que muitas das vezes se tornava insuportável por suas fanfarronices desmedidas e descabidas de bom senso. De passagem em uma cidade por pelo menos um dia, eram certas as seguintes ocorrências: Ele cortejaria três ou cinco mulheres, casadas ou não; Ele jogaria, ainda que estivesse apostando o dinheiro de outros; Ele beberia em demasia; e, por fim, vinculada a qualquer uma das três atividades anteriores, Ele entraria em uma confusão que certamente poderia lhe custar a sua vida, e de quem mais estivesse próximo. Um Bon Vivant convicto e impulsivo, que além de possuir uma singular habilidade para os jogos de azar, sobretudo, o de dados, também, era um hábil arqueiro, arremessador de facas, combatente, e, também, batedor de carteiras. Quando ele adentrou o grupo de Heitor há muitos anos trás, havia outro membro chamado Dillus de Myrgan, e, eles se pareciam fisicamente, exceto pelos quase desapercebidos traços élficos de Phartus e alguns trejeitos, no entanto, não demorou muito para serem chamados de irmãos, e, assim o líder o batizou de O Gêmeo de Myrgan, que com o tempo tornou-se somente, O Gêmeo.

Com Phartus, João de Deus aprendeu algumas de suas habilidades mencionadas acima, assim, como a aproximação propiciou também a afeição por hábitos indesejáveis. O primeiro fumo que o jovem puxou foi na companhia do meio-elfo, contudo, fumar, beber, e jogar faziam parte do cotidiano do grupo de Heitor Ulbier.

Ilustração 02:
Alex Bartô, O Montanhês.
Reservado e Braço direito de Heitor Ulbier.
Alex Bartô, O Montanhês, era o braço direito de Heitor, e, assim como, João de Deus, ele era um talento que fora encontrado ainda adolescente perdido entre vassalos medíocres de um nobre qualquer nos confins de Mégalos. Sem sombra de dúvidas, ele era um dos melhores combatentes do grupo, e, conseguia fazer de seus punhos armas naturais. Fazia um tipo reservado de poucas palavras, contudo, não dispensava uma bebida, um fumo e um sexo. Entre o grupo havia à surdina um comentário: “Saberás quando todos aqui estiverem demasiadamente bêbados e prontos para morte, quando o Montanhês, começar a tagarelar sorridente”. O tempo em que João esteve com eles, isso nunca aconteceu, e, foram muitas as bebedeiras pelas quais passaram. Inocentemente, o jovem João de Deus apostou com Phartus que conseguiria beber a ponto de fazer com que Alex quebrasse a sua postura impávida, e, assim viesse, a tagarelar sorridente... Nesse dia, João viveu o seu primeiro coma alcoólico.

Quando João de Deus decidiu-se por aprender algo com Alex, ele teve de pedir uma espécie de intermediação de Heitor, pois, por algumas vezes ele tentou se aproximar do Montanhês, e este último sempre se mostrou alguém indisposto a ensinar aquilo que sabia para qualquer um até aquele momento. Uma das poucas palavras que o retraído homem disse diretamente sob um olhar penetrante ao jovem foi: “Veja, aprenda e não perturbe”, sob o total aval do líder. João até se esforçou para acompanhar em silêncio a agilidade com a qual seu tutor exercia as suas perícias de combate e confecções de armadilhas, mas não tardou para que ele quebrasse a terceira regra de convivência, e, com isso, o jovem impulsivo ganhou um primeiro olho roxo dentre os membros do grupo.

Heitor Ulbier, O Caçador, era uma figura emblemática, popular, e quisto entre os seus. Tinha uma habilidade nata de perceber quando as pessoas tentavam lhe enganar ou tirar vantagem sobre ele, de tal forma, que dificilmente se dava mal. Uma vez ou outra se aventurava em fazer negócios com tipos mau-caráter para saber até onde eles iriam com suas tramoias, mas, o que mais lhe chamava a atenção em fazê-lo, era a possibilidade de passar os mesmos para traz, como por diversas vezes o fez com o Marquês Zimmerman de Craine. Diziam que ele era capaz de dormir com um olho aberto e outro fechado, de tamanha prontidão e leveza de sono, tinha o olfato, o paladar e a audição assombrosamente apuradas. Estranhamente, conseguia por horas a fio, ficar imóvel, olhando em um único sentido, sem beber ou comer. Em meio a uma floresta se sentia parte da mesma, possuía a estranha peculiaridade de às vezes cheirar e até ingerir as fezes de um animal, para saber do que a presa havia se alimentado e a quanto tempo. Embora tivesse muitas boas atribuições enquanto líder, ele tinha uma dificuldade em lidar com o dinheiro e as conquistas que o precediam. Às vezes o muito que Ulbier conseguia conquistar se perdia mais rápido do que se esperava, e, isso afetava consideravelmente a moral do grupo que o acompanhava, era como se ele fosse detinha algum tipo de azar para essas questões. 

Com O Caçador, João de Deus pôde aprender um pouco de suas habilidades de conversar persuasivamente, em caçar, rastrear, emboscar, assim como algumas maneiras de tornar a sua prontidão mais apurada. Às vezes, João olhava para o velho Heitor, e imaginava, se o pai dele teria sido como esse homem, pois, eram pouquíssimos resquícios de memória que o jovem ainda tinha de seu progenitor.

João de Deus ao aprender algumas técnicas com Phartus na arte da punga, prestidigitação e dos jogos de azar, assim que o grupo retornou de uma empreitada em um bosque nas proximidades da cidade de Arvey, ele resolveu que já era hora de fazer uso de seu recém aprendizado com outros alheios ao seu convívio diário. A sorte de principiante elevou o seu ego ao ser bem sucedido em três ações em uma mesa de jogos de dados, contudo, algo de muito ruim ocorreu na quarta tentativa, quando ele tentou trapacear um gnomo que também estava sentado a mesa, a jogar e a beber por mais uma aventura atravessada. Logo, o pequeno chamou a atenção da taverna inteira para desmascarar o ladino. No mesmo local, estavam alguns outros dois membros de seu grupo, contudo, os mesmos não estavam predispostos a comprar a briga que envolvia uma quantidade superior de indivíduos, sendo assim, trataram logo de se retirar em meio a confusão. O jovem foi imobilizado e surrado por um grupo de gnomos, anões e homens que se amontoaram para julgarem com o peso de seus punhos o trapaceiro. Inconsciente, seu corpo foi arremessado a uns três metros por um Meio-Orc que trabalhava no estabelecimento como Leão de Chácara.

Phartus que havia conduzido João até aquela taberna o deixou a vontade enquanto se intertia com uma das jovens que atendiam ao salão, contudo, como o mesmo se retirou do lugar para se agarrar mais a vontade com a mulher que seduzira não percebeu a tremenda encrenca em que o jovem companheiro havia se metido. Contudo, foi o Meio-Elfo, após algum tempo que socorreu João ao encontra-lo desacordado, ensanguentado e amordaçado ao chão em decúbito dorsal. Quando Phartus o ergueu pelos braços o sustentando pelo ombro, um gnomo disse ao longe próximo a entrada da taverna: “Infausto Embusteiro, mais sorte da próxima, se houver”, e seguiu caminhando em sentido contrário com um cachimbo na boca. A princípio aquilo soou repugnante e digno de vingança, mas veio a calhar, sobretudo, tendo o jovem aprendiz de ladrão sobrevivido, e, aprendido a mais uma grande lição.

No grupo de Heitor Ulbier, João de Deus viveu por cerca de três anos, e, com ele participou de algumas valiosas empreitadas que lhe geraram experiências significativas na vida a qual havia abraçado. Com o tempo, e maturidade suficiente, ele percebeu que o grupo já não poderia oferecer coisas das quais almejava, que incluíam riqueza, fama e passado.


Verdades que conduzem ao passado e que alimentam vinganças

Há algum tempo João de Deus tinha tido alguns sonhos de infância, onde vivia feliz na companhia de Maria a percorrer estradas empoeiradas rumo a lugar nenhum, e, isso o atormentava de alguma maneira, pois, não sabia até onde a história contada por seu algoz na fazenda era verdade ou não, uma vez que, Luzmmonarca o torturava de todos os modos possíveis. E, sempre que relatava esses sonhos e sentimentos para Heitor e Phartus, logo eles procuravam não se aprofundar no entendimento daquilo, o que lhe deixava mais inquieto. Contudo, foi Alex Bartô, O Montanhês, que o ouviu após perceber que algo não estava em seu devido lugar – o jovem estava desconcentrado e distante -, e, o orientou a deixar o grupo em busca de respostas para as suas perguntas. Nesse dia, para total surpresa, eles tiveram a mais longa conversa que qualquer um já teve com aquele homem reservado e de pouquíssimas palavras teve em anos.

O Montanhês sugeriu que João de Deus fosse para Craine o quanto antes, e lá procurasse a sua irmã Maria no Palacete das Orquídeas de Noir que pertencia a Hilda Noir, amante do Marquês Zimmerman. Pois, assim como João, Alex Bartô desacreditava na história contada por seu algoz. Desta forma, ambos sabiam que ele precisava ter a certeza de que Maria estava vida para calar a dor que o torturava. Na calada da noite, o tutor das armadilhas preparou uma montaria para seu companheiro e aprendiz, assim, como dispôs a ele um punhado de peças de ouro suficientes para comprar a vida de pelo menos umas cinco escravas. Uma última palavra proferida pelo Montanhês: “Para essas moedas não há volta, assim, como par ti, João”. Ele lhe deu um forte abraço e desejou-lhe uma viagem segura.

Assim, como tantos outros fizeram antes dele, João de Deus deixou o grupo liderado por Heitor Ulbier, O Caçador. Contudo, nesses três anos de convivência, algo no seu intimo sabia que o líder conseguia captar esse tipo de sentimento de fim, e que ele também tinha outra grande dificuldade além da indisciplina financeira: a de dizer adeus para os seus.

Ilustração 03:
Palácio das Orquídeas de Noir,
 liderado por  Hilda Noir, A Senhoria
 a Captora de João e Maria de Deus.
Quando João chegou à cidade de Craine, não tardou para que ele encontrasse o Palacete das Orquídeas de Noir. Uma espécie de prostíbulo frequentado exclusivamente por nobres e homens de posses do reino. Desta forma, ele se deparou com uma dificuldade da qual ainda não estava preparado. Durante dias, ele ficou observando o perímetro, quem entrava e quem saía do local, quem zelava pela vigilância e todos os demais perigos possíveis, por fim, chegou à fatídica conclusão de que sozinho seria impossível adentrar o lugar, e, ainda mais difícil seria deixa-lo acompanhado de uma fugitiva. Por diversas vezes vislumbrou em uma das várias janelas a feição singular de Hilda Noir, e de seu antigo mestre, o Marquês Paul Zimmerman.

No coração de João de Deus uma verdade ganhava forças a cada novo dia estudando aquele requintado cativeiro: a Maria poderia estar viva sim. E, esse pensamento, além de lhe dar forças também o afligia.

João de Deus reconheceu nas proximidades da hospedaria onde estava hospedado um homem que há muito não via, um distinto nobre que frequentava o prostíbulo, e que, embora não soubesse o seu nome, o agarrou pelo braço vociferando inquisitivamente as seguintes palavras:

“Eu o reconheço... É o Homem das várias faces que fez com que a minha irmã o seguiste, para no fim, acabarmos na desgraça em que nos encontramos!”.

O sujeito ficou perplexo com tais palavras e a maneira como fora abordado pelo rapaz, e, tentou logo se desvencilhar, contudo, João já não era mais uma criança inocente como de outrora, e, soube muito bem como detê-lo, Não havendo saída, os dois estavam novamente frente a frente, e, somente coube, a Jammes Debberus ter autocontrole, e levar o seu captor até um local mais reservado para conversarem em particular, uma vez que, o jovem estava demasiadamente alterado. Jammes detestava exposição pública.

Apesar dos anos, Jammes não aparentava ter envelhecido tanto. Assim, que eles chegaram no quarto ao qual ele havia alugado, o mesmo não foi grosseiro e nem tentou se afugentar, muito pelo contrário, foi cordial e muito educado tomando duas cadeiras e as colando de forma que pudessem se assentar e dialogar civilizadamente. Ele, também estava curioso em entender do que estava sendo acusado em tantos anos. A forma como Jammes recebeu João de Deus, fez com que o último revesse a sua postura, pois, aquilo o surpreendeu.

Em silêncio, Jammes Debberus ouviu o relato de toda a história de vida de João de Deus até aquele momento. Lembrou-se do episódio no barco, e, de como aquelas duas crianças haviam atrapalhado os seus planos, contudo, o motivo pelo qual havia se afugentado delas, era justamente, por acreditar que as duas pudessem ser filhos bastardos dele, de fato, sobretudo, por em diversas ocasiões, tido ele flertado e encantado algumas mulheres que cruzavam o seu caminho. Conhecer essa verdade o tranquilizou em partes, mas, saber que a jovem Maria havia sido levada para o Palacete das Orquídeas de Noir para servir como escrava sexual de devassos nobres o fez se sentir parcialmente culpado, pois, nessa hora veio lhe a lembrança dela blefando o chamando histericamente de “Papai”, e, pior, a confirmação de que uma das mulheres que lhe pareceu familiar dentro do palacete poderia ser com certeza, a adolescente que conheceu outrora. Em seu intimo um pensamento martelava incessantemente como uma consciência pesada:

“Tanto tempo havia se passado, e, quanto sofrimento minha fuga de uma situação improvável causará a outros... Lamentável para quem sempre gozou de bom senso, e, brindou a sensatez”.

Jammes se pôs a falar após ponderar toda a situação:

“Lamentavelmente, Eu não posso fazer as águas do tempo retornarem a nascente, e, fazê-las novas, pois, o frescor e o sabor são únicos para aquele que se deleita delas. Contudo, após tal relato, sinto-me compelido moralmente em ajudá-los, sobretudo, a jovem que é mantida em cativeiro por Hilda Noir no Prostíbulo da Nobreza Megalana... Não tenho certeza se a mulher que deseja tirar de lá é a mesma cuja semelhança me soou familiar, mas na altura da história em que nos encontramos, tanto Eu, como Você, desconhecemos com clareza os traços atuais dela, porém, acredito que possivelmente só conheceremos a fundo quando estivermos frente a frente com ela. Portanto, uma vez em minha companhia, deverá se portar conforme eu orienta-lo, pois, um deslize naquele lugar poderá ser fatal tendo em vista a missão. Coloco dessa maneira, pois, não sei até que ponto a liberdade das escravas de Hilda são comercializadas”.

João de Deus apenas teve de confiar naquela misteriosa figura de seu passado, e que naquele momento lhe pareceu o meio mais rápido de se chegar novamente a Maria.

Ao longo de dois dias, Jammes tentou ensinar um pouco de etiqueta e cultura, de modo que João pudesse adentrar com ele pela porta da frente o Palacete, algo mais sensato e menos arriscado. No entanto, o curto tempo, demonstrou a ambos que para aquele tipo de instrução seria necessário um tempo do qual eles não dispunham no momento. Sendo assim, o Mil-Faces pediu somente para que quando estivessem dentro do recinto: o jovem evitasse falar, não tomasse partido de algo sem o seu consentimento, e, buscasse imita-lo em seus trejeitos quando sinalizado por ele. A ideia sugestionada por Debberus para adentrarem o Palacete de Hilda Noir era muito boa: João de Deus seria filho de um nobre em ascensão no reino de Cardiel, e que fora enviado ao lugar para conhecer um pouco do comércio e possíveis aliados para os negócios da família, contudo, ele seguia também em processo de enriquecimento cultural e aquisição de demais conhecimentos relacionados a necessidade de um nobre, e, quanto a isso, .

Com algumas moedas de ouro cedidas por João de Deus a Debberus, eles construíram fisicamente a imagem dos dois personagens que adentrariam o Palacete naquela noite pra resgatar Maria.


Adentrando o Palacete, sucumbido ao inferno de devassidão.

Embora João de Deus tenha adentrado e se divertido em alguns bordeis na companhia de seus antigos comparsas de grupo, nada se comparava aquele lugar. Jammes Debberus era um homem meticuloso e fez questão de informar ao seu parceiro o que era o Palacete das Orquídeas de Noir, e, sobretudo, quem era os seus benfeitores e clientes:

"A nossa anfitriã, Hilda Noir, é uma criatura de beleza rara e misteriosa, da qual ainda desconheço a sua real natureza, mas sei que não é humana, pois, são raríssimos os homens que resistem aos seus apelos, dos triviais aos descabidos. É impossível não ficar encantado com a sua beleza singular; o seu olhar profundo capaz de desbravar a alma de um homem em fração de segundos; a delicadeza melodiosa como a sua voz penetra os nossos ouvidos, que mais se assemelha a uma canção profunda natural de nosso intimo; o seu indecifrável perfume suave de flores; e os seus gestos pitorescos... No meu entendimento, tamanha beleza significa perigo máximo. É ela a principal responsável pelo bom funcionamento da casa, assim como também, quem decide pelas contratações e o tipo de entretenimento a ser propiciado aos seus convidados, pois, orgias em grupo, sodomias e perversões que beiram a sanidade são frequentes.

Hilda serve os clientes do Palácio com as mais belas mulheres de Ytarria, e, não são somente humanas que compõem o grupo de escravas sexuais, existem semi-humanas também, sobretudo, da raça dos elfos, meio-elfos, halflings, gnomos, anãos, orccs, meio-orcs, e centauros. Assim, como a raça não é um delimitador, a idade e o sexo também não são. E, não somente ótimas experiências sexuais são servidas aos frequentadores, mas, também, o consumo deliberado e intenso de várias substâncias alucinógenas oriundas de várias partes do continente.

Cada escravo sexual possui a alcunha de uma flor, e, todos são proibidos de falar, salvo se o cliente assim desejar. E, a senhoria da casa faz questão de saudar todos os visitantes, principalmente, tratando-se de nobres oriundos de outras localidades. Portanto, nada de fita-la nos olhos para não comprometer o nosso propósito.


Ilustração 04:
Marquês Paul Zimmerman de Craine,
principal benfeitor e fiador do Palácio de Noir,
 e, amante de Hilda Noir.
O Marquês Paul Zimmerman é o principal benfeitor e financiador do Palácio, além de ter Hilda como amante declarada. Existem outros clientes na condição de protetores, mas nada se compara aquilo que o marquês se predispõe a fazer em auxilio a sua consorte. A guarda do lugar é toda cedida por ele, e, deve haver pelo menos sessenta homens, dentre eles, humanos e semi-humanos, e a criadagem que é responsável pela manutenção do lugar, a grande maioria também é oriunda de suas propriedades. Quase todas as noites ele visita o lugar, e muitas das articulações políticas desse lado do reino acontecem entre as paredes deste recinto.


Antes que você me questione o motivo pelo qual Eu sei tanto a respeito do Palácio, eu direi sem rodeios, a minha vida antes de sua aparição repentina seguia um curso que tinha como objetivo a minha aceitação junto a nobreza aristocrática deste reino, ainda que fosse somente mais um conselheiro, visto que, ao contrário de ti, eu nunca pude receber um treinamento em combate descente, lançar-me em aventuras grandiosas, salvar donzelas... Nunca gozei de perfeita saúde, e isso foi crucial. Hoje compreendo que talvez essa nunca tenha sido a minha sina, as tais estrelas do heroísmo, pois, compreendi que em mim havia um tato para politicagem e obscuridade das coisas, e, para isso, deveria aprimorar este meu dom. Portanto, desde então, o que tenho buscado é me colocar junto aos ilustres senhores da sociedade megalana, ainda que financiado pelos próprios as minhas participações nesses encontros... Sim, uma vez ladrão, sempre ladrão, jovem."

João de Deus em silêncio sabia que estava lidando com um homem que era um tipo de ladino referenciado por Phartus como um dos mais perigosos, sobretudo, para a sociedade como um todo, um manipulador político. Ainda que Debberus fosse um profissional em busca do seu lugar ao sol, o jovem foi advertido do tipo de atrocidades que esses homens são capazes de realizar em benesse própria sem se importar com as consequências. João se manteve na dele, e, preferiu não opinar sobre o caminho seguido por seu companheiro, certo de que, uma divergência ideológica pudesse prejudicar os seus planos. Ele acreditava que de alguma maneira, o seu companheiro estivesse agindo com honestidade, principalmente, ao relatar particularidades para um desconhecido em tão pouco tempo de convivência, algo que o fez lembrar Heitor Ulbir.

Os dois chegaram ao Palacete das Orquídeas de Noir em uma bela carruagem, guardada por quatro homens, dois que seguiam a frente como batedores e os outros dois na retaguarda, a fim de lhes assegurarem uma passagem tranquila, e, demonstrassem claramente nobreza. Ao longo, do percurso, Jammes ficou a repassar todo o enredo da estória para o jovem. Embora João fosse o fiador da liberdade de sua irmã, era a Debberus que caberia a negociação junto a Hilda. E esse ponto, parcialmente angustiava João, pois, ele esteve durante anos na companhia do Caçador, um dos melhores negociadores que pode observar em ação, ainda que comerciasse somente a venda de animais.

Ilustração 05:
Nas entranhas libidinosas e luxuriantes
 dos Domínios de Hilda Noir.
Ao adentrarem as portas do salão principal do Palacete, um mundo muito diferente do qual João de Deus conhecia se abriu diante de seus olhos, algo inesperado, assombrosamente belo, e, a princípio, inenarrável. Um local ricamente adornado, perfumado, e aconchegante a todos os sentidos. Um grupo formado por belíssimas criaturas desnudas em um palco conduziam uma canção ambiente que inspirava os instintos carnais. Havia comida em fartura, e muitas delas, desconhecida ao seu mediano paladar. A beleza se fazia presente por todos os quatro cantos do lugar. Contudo, foi Jammes que apresentou alguns dos Leões de Chácara que guardavam o lugar - seres que passariam desapercebidos aos olhos encantados do jovem senão fosse o seu companheiro -, eram eles, Gárgulas e Espectros a observarem tudo e todos. Muitos dos homens que ali estavam aparentemente já se conheciam de longa data, cumprimentavam-se e seguiam sem se sentirem intimidados por aquelas coisas, que mais se assemelhavam a peças decorativas do ambiente.

Quando João de Deus vislumbrou a entrada de Hilda Noir a caminhar suavemente de maneira flutuante em sua direção, ele teve o mesmo sentimento de Jammes: tamanha beleza não caberia a uma humana. Ele tentou não olha-la, concentrar-se naquilo que seu companheiro havia mencionado, porém, o que se fazia diante de seus olhos estava muito além do que imaginaria. Uma torrente inesperada de memórias do passado emergiram das profundezas de seu intimo, como se o primeiro encontro com aquela bela mulher houvesse ocorrido a segundos atrás. Ele tentou recompor-se de um choque súbito, como se lhe houvesse faltado ar, mas, era tarde, Ela já havia percebido algo sutil no ambiente... Antes que Debberus pudesse dizer algo, ela pousou o dedo sobre a boca dele, paralisando-o. E, então ela falou olhando diretamente nos olhos de João, como se sussurrasse diretamente em sua mente:

“Vou lhe trazer a mulher que em sonhos tem aguardado por longa data, Infausto Embusteiro, espero que a mesma propicie a você um prazer jamais imaginado”.

Hilda Noir segurou delicadamente a mão de João, conduzindo-o hipnoticamente por salões e corredores diversos do Palacete, passando por inúmeros cômodos, dos quais ele podia ouvir de tudo, ainda que tais sons lhe parecessem longínquos... Ele caminhava como senão fosse pelas próprias pernas, anestesiado ou mesmo embriagado, como se estivesse sonhando, com as vistas estivessem turvas e inebriadas... Queria se impor aquilo tudo, mas era crescente um sentimento de submissão e ardente paixão. Nunca havia sentido algo semelhante.

Quando João de Deus recobrou parcialmente os sentidos, ele estava em um quarto octogonal, ricamente decorado, sem a companhia de Hilda. Entretanto, diante dele estava um grande leito, e, envolta deste, diversas mulheres a rodea-lo deitadas ao chão, estando umas sobre as outras a fitá-lo. Ele olhava a cada uma delas perplexo pela beleza singular... Uma névoa aromática encobria suavemente os quatro cantos. Sentia-se embriagado, mesmo não tendo a lembrança de ter ingerido um pingo de bebida alcoólica desde a entrada. Acreditava que estava sob algum encanto... Poderoso, e do qual ele não conseguia resistir.

Ilustração 06:
A cortesã Laélia
 que serviu a João até o ultimo suspiro de vida,
e, que fatidicamente se revelaria ser Maria,
 a irmã por quem ele buscava reencontrar.
Sentiu quando delicadas mãos percorreram as suas pernas, escalando ofegante a altura de seu corpo. Não as via, mas, percebia-as em sedento movimento. Ele subiu o leito da cama desnudo, sem saber como as roupas haviam lhe sido subtraídas e em que momento... Aquelas mulheres ergueram-se sentadas a volta do leito, admirando-o. Em seu instinto libidinoso e selvagem queria possuir a todas, eram dezenas. Oito delas se ergueram por completo, uma de cada lado do quarto, desnudas, e se puseram a dançar em movimentos cadenciados e envolventes, enquanto as demais sussurravam uma canção ininteligível que funcionava de maneira alucinógena. Quando se deu por conta, estava demasiadamente excitado, deitado sobre a cama, e, sendo agraciado por diversos afagos, olhares, mãos, pernas, bocas e corpos. Era uma sensação tão intensa que o seu corpo estremecia e suava compulsivamente, sem discernimento de nada, completamente envolvido por luxúria.

Inexplicavelmente, uma única mulher tomou o pensamento de João, a única que em meio a toda aquela situação surreal, parecia-lhe concreta, de carne e odor que poderiam ser experimentados em sua plenitude com peculiar familiaridade. Ela lhe propiciou gozar por diversas vezes com uma intensidade jamais experimentada, onde por diversas vezes, ele sentiu como se a própria morte estivesse lhe espreitar a vida, em uma sensação de adrenalina culminante, desenfreada e mortal. O sorriso e o olhar da mulher lhe traziam a lembrança de algo muito bom, a muito desejado, no entanto, aquilo não se conectava a nada em sua mente... Era como se o desejo instintivo do corpo se sobressaísse a qualquer tentativa de racionalização do momento.

Houve um único momento em que João possuía aquela mulher que percebeu no olhar dela um correr de lágrimas, e, de que ela sussurrava em gemidos algo do qual lhe parecia familiar, contudo, inaudível, mas, por fim, associou aquilo ao prazer que ele proporcionava a sua amante, e, seguiu freneticamente sem se importar com nada, enquanto, ouvia nitidamente o gargalhar de várias pessoas, como se estivessem extasiados com aquele espetáculo.

Quando João de Deus recobrou a consciência, era manhã. Uma bela jovem estava deitada sobre o seu corpo, nua, e parcialmente, coberta por lençóis sujos de sangue... Ele não se lembrava de com exatidão os detalhes da noite anterior, mas havia um gosto estranho em sua boca, assim como algo que o perturbava intimamente e que não sabia ao certo decifrar. Ao tentar se desvencilhar da jovem para se levantar, percebeu que o corpo estava frio, sem vida, logo, Ele foi acometido por um terror sombrio seguido de uma sequencia de imagens malditas que se intercalavam em uma conclusão nefasta... João havia possuído Maria até a morte!

Uma voz composta, vinda de lugar algum, sombria e carregada de perversidade rompeu aquele atordoamento de João:

“Pensou que adentraria a minha casa e retiraria de mim aquilo que conquistei sem pagar um preço por isso, João de Deus?! Você veio até aqui em resposta a um chamado dela, um anseio comum a ambos em saber se ainda estavam vivos e por meio de um canal que eu não poderia impedi-los, mas, enfim, o que se seguiria em diante, isso sim, eu teria como contornar. Não somente permiti o reencontro dos irmãos, mas também consenti um último momento de prazer para que relembrassem a felicidade de estarem juntos”.

João de Deus agarrava-se desesperadamente ao corpo de Maria, e, quanto mais a realidade ganhava forma, mais e mais ele afundava-se em total insanidade. Ele tinha que sair daquele lugar imediatamente ou aquilo consumiria a sua razão por um todo. Ele tomou a mulher no colo, buscou forças nas profundezas de seu âmago para se por de pé, e correr em direção a saída do Palacete. Infelizmente, ele não dispunha de tanta força, e, na quinta queda, caído ao chão, sentindo como se estivesse a expelir sangue pelos poros do corpo, repleto de uma dor visceral, ele em prantos vociferou todas as injurias para com o demônio que havia os punido com tamanha chaga.

Ilustração 07:
Debauchery,
o demônio por de trás da encantadora Hilda Noir.
Ao longe ele podia ouvir em coro risos de escárnio.

“Sua ação insensata não foi de todo prejudicial aos meus interesses, e, graças a ela propiciei aos meus clientes um entretenimento do qual eles jamais esqueceram, a história de vós será por tempo indeterminado, lembrada e recontada... Quanto as tuas moedas de ouro, as mesmas pagaram a sua passagem com vida daqui, e um mago branco capaz de encantá-lo com aquilo do qual mais necessita neste momento, o esquecimento”.

Em meio às sombras do quarto, pela primeira vez, João de Deus pôde observar aquilo que o atormentava, que lhe dirigia palavras letais a sua alma, uma criatura demoníaca, encoberta por uma aura maligna de precedentes desmedidos, com a face repleta de uma intrigante satisfação e de olhar perturbador.






O Preço do Milagre é o Esquecimento.

João de Deus foi encontrado a quilômetros da cidade de Craine por Alex Bartô, O Montanhês, debaixo de uma ponte, em maltrapilhos, irreconhecível, agarrado ao corpo de uma mulher, cujo mesmo já se encontrava em adiantado estado de decomposição em função do odor que exalava. Ambos estavam seminus, e, ele mal conseguia falar algo que pudesse ser compreendido, balbuciava palavras desconexas. Quando o Montanhês resolveu passar por ali, um homem que cruzava o seu caminho pediu para que tivesse cuidado e tivesse a sua arma em punhos, pois, um louco, assombrava a região há dias, contudo, ele só não esperava que o tal, fosse o seu antigo companheiro de grupo, o Infausto Embusteiro. Parcialmente paralisado, lágrimas rolaram a face daquele homem ao ter aquela visão penosa, lágrimas que alguns duvidariam a possibilidade de algum dia presenciarem.

Alex Bartô, dias depois após ter ajudado João em sua partida do grupo de Heitor, passou a ter pesadelos como se a vida do companheiro estivesse em risco, a, princípio ele relevou aquilo, mas à medida que aquela coisa cresceu e perturbou o seu desempenho no cotidiano, o Montanhês acreditou ser algum tipo de presságio. Ao relatar isso a Heitor, e demais pormenores das intenções de João - que partirá do grupo em busca de Maria no Palacete das Orquídeas de Noir -, o Caçador não titubeou, pediu para que Alex fosse o mais breve possível ao encontro do ex-companheiro, e, o ajudasse naquilo que fosse preciso.

Quando João de Deus viu Alex Bartô, ele em sua insanidade achou que o mesmo queria tirar o corpo de Maria de seus braços. Ele ficou muito agitado, agressivo e partiu para ataca-lo.

Tardou um pouco para que o Montanhês percebesse que seriam necessários mais do que alguns golpes atordoantes para paralisar João, pois, aquilo que ele estava a enfrentar era de longe o rapaz de bom coração, honesto, e de coração mole que por diversas vezes demonstrou ser em sua companhia. Estava diante de uma fera afundada em tormentos desconhecidos. Por mais que Alex fosse um hábil combatente, algo mantinha João de pé e enfurecido, e, senão fosse pela intervenção surpresa de Phartus, algo de muito pior teria acontecido naquele fim de tarde.

O meio-elfo ladino achou estranha à partida repentina do Montanhês do acampamento onde o grupo estava concentrado, e, movido por sua curiosidade, resolveu verificar por conta própria do que se tratava. Ele surgiu justamente no momento em que suas flechas se fizeram necessárias para salvarem a vida de Alex do possível fim, e, para abaterem João de Deus que desfaleceu ao chão babando e grunhindo sons impronunciáveis.

Alex e Phartus amarraram João de Deus, e colocaram o seu corpo sobre o lombo de uma das montarias. Ambos concordaram que um deles deveria ficar para enterrar o corpo da mulher, e, nesse sentido, Phartus compreendeu que isso caberia a ele, pois, era o mínimo que poderia fazer pelo ex-companheiro de aventuras e aprendiz. João deveria ser levado às pressas para ser tratado e curado, pois, somente os estancamentos dos ferimentos não garantiriam a sobrevida dele.

O Montanhês se lembrou de que havia na cidade de Raphael alguém que poderia ajudar João de Deus, e, que forçando a cavalgada poderia chegar lá em menos de um dia. E, assim ele o fez, forçando ao máximo o seu cavalo.

Ao chegar à cidade de Raphael, muito cansado e faminto, Alex Bartô não se deteve foi diretamente ao encontro do único homem que conhecia e que poderia curar o companheiro de todas as moléstias que o afligiam. João de Deus quase não tinha sinais vitais quando lá chegou, e o corpo estava demasiadamente debilitado. Somente um milagre o salvaria da morte certa. Felizmente, a cura foi possível e em alguns dias o jovem Embusteiro estava de pé, contudo, houve um preço a ser pago: a memória de João de Deus nunca mais foi a mesma, tendo algumas coisas de sua vida anterior aquele momento se perdido para sempre.

“O nome Maria sempre me soou agradável... Sei lá, talvez algum dia quando tiver uma filha, Alex, eu coloque esse nome nela. Sempre me lembro do conto dos dois irmãos que se perderam em uma floresta, foram iludidos e capturados por uma bruxa, e em meio a tantos perigos passados juntos, o seu espírito de fraternidade sobressaiu aos desafios”.

Conquanto, João de Deus tivesse retornado ao grupo de Heitor Ulbier, era como se ele não se sentisse mais parte daquilo, e, não tardou para que o jovem partisse, sobretudo, após a morte do amigo Alex Bartô, que não sobreviveu ao ataque de uma criatura mortífera que habitava uma região da sombria Floresta Negra ao qual desbravavam em mais um trabalho. Os seus anseios do jovem permaneciam quase os mesmos de quando partirá pela primeira vez: queria ser reconhecido como um herói; obter a fama dos grandes heróis de Ytarria, fazer fortuna e possuir várias mulheres, embora, uma não lhe saísse da cabeça. E, a essa única mulher que lhe perturbava os sonhos, estranhamente não podia ser descrita, a quem ele atribuía tratar-se do verdadeiro amor, e à necessidade de ter todas quanto pudesse até encontrá-la.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Saga dos Bravos de Orion - João de Deus - Parte I


João de Deus, O Infausto Embusteiro.
Natural do Reino de Caithness (Continente de Ytarria).
Nascido sobre o signo de Áries
Ofício: Ladrão/Mercenário


Prólogo de um Herói

Ilustração 01
Outrora este era Nárccio Narcellus de Denton,
que futuramente seria conhecido por toda Ytarria,
 como “João de Deus”, O Infausto Embusteiro.
Nárccio era o filho caçula de uma família de miseráveis camponeses que vivia no condado de Simonton (Reino de Caithnness) nas proximidades da fronteira entre o reino de Caithness, o Grande Deserto e a Grande Floresta.

Poucos anos após o nascimento de Nárccio, o Conde Walton de Simonton nada satisfeito com os tributos recolhidos de seu povo e os recorrentes assaltos as suas caravanas mercantis que percorriam o Rio Smoke, resolveu baixar um decreto nas quais todas as famílias que estavam a viver em seus domínios deveriam lhe prestar uma singela homenagem como desculpas pela incompetência de sua produção e o desagrado ao seu senhorio. E, essa oferta a maior era a entrega de seus filhos homens.

Era sabido pela mãe de Nárccio, que trabalhava dentro do palacete do Conde, que o mesmo não tinha boas intenções com os filhos. Pois, eram frequentes os rumores entre os servos de que Walton molestava com violência sexual os mais novos. Tendo muitos dos corpos desses inocentes jogados ao canil como alimento aos cães de sua guarda, assim como também a transação comercial dos sobreviventes e dos mais velhos como escravos para alguns nobres dos baronatos vizinhos de Denton e Ferrier.

Antes que os soldados deixassem o palácio do Conde a fim de cumprirem a ordem superior que lhes foi delegada, Mayrah partiu ao encontro de seu esposo, Joan Narcellus, para lhe dizer que restava pouquíssimo tempo até que os meninos fossem lhes tirados do braço para uma atrocidade maior, e, que, portanto, se fossem fazer algo eles não deveriam tardar mais.

Joan Narcellus conseguiu uma montaria, alguns mantimentos, e, antes que deixasse furtivamente o condado, ele foi abordado por João de Aggorá – uma pessoa a qual Joan nutria grande respeito e admiração, pois sempre viu nele um amigo -, e em soluços este homem aparentemente forte, o suplicou:

- Joan não sei para onde levarás o seu pequenino, mas bem sei que é para buscar algo melhor do que estes muros podem ofertar, portanto, não me falte nessa hora, meu amigo, pois, sei que não tardará para que o Conde e seus vassalos venham requerer a minha pequena Galiul, que no próximo ano estará a completar treze primaveras. Por favor, eu lhe imploro. – João se pôs de joelhos com lágrimas nos olhos e agarrados a calça de Joan.

Joan, comovido por tal gesto, prontamente colocou o amigo de pé, e aceitou sem pestanejar o seu apelo que lhe fizeram marejar os olhos.

Antes que amanhecesse por completo, Joan partiu acompanhado de seu filho e da filha de João. Ele tinha conhecimento de que o local mais seguro a se seguir seria em direção a cidade de Nova Jerusalém no reino de Mégalos fazendo o percurso às margens do Rio Smoke, contudo, sabia também que a rota não era fácil. Pois, o mesmo já havia feito este trajeto em outros momentos na condição de carroceiro mercante, e por várias vezes o grupo em que esteve foi abordado por ladinos errantes.

Joan se esforçava ao máximo para não denunciar a passagem deles, contudo, ele não havia sido treinado para aquela tarefa, e para aqueles que já estavam na rota ha muito tempo, e, sobreviviam de atos sórdidos e ilícitos, não tardou para que houvesse os primeiros encontros. Em menos de cinco dias de cavalgada ele e as crianças conseguiram escapar de duas abordagens diretas, mas, no décimo terceiro dia os três foram apanhados de surpresa por um grupo de cinco goblins e três cães liderados por um meio-orc. Ele só teve tempo suficiente para montar as crianças no cavalo e dar ordem para que seguissem direto, enquanto ele enfrentava corajosamente munido apenas de sua espada curta aqueles hostis ladinos.

Desde a partida de Simonton até aquele momento crucial de separação, Galiul (12 anos) já se sentia a cerca de pouco mais de uma semana como se fosse a mãe do pequeno Nárccio (3 anos) tomando para si a responsabilidade de cuidar dos dois.

Galiul fez como Joan havia lhe dito: seguiram com cautela pelo caminho as margens do Rio Smoke, sempre tentando se afastar ou se esconder de grupos e possíveis criaturas que se aproximassem, até que alcançaram a pequena cidadela de Donlis, desprovidos do alazão em função do mesmo ter adoecido devido ao esforço da jornada. Antes de se separarem, o pai de Nárccio ainda a orientou de que quando chegassem ao próximo povoado deveriam se dirigir rapidamente a Casa de Deus, e pedir acolhimento ao santo padre, e, lá aguardassem pela chegada dele. Contudo, caso ele demorasse em aparecer, deveriam os dois pedir ao padre que os encaminhassem com segurança para a cidade de Nova Jerusalém em Mégalos a um lugar chamado Casa das Crianças de São Miguel (Doce Lar dos Órfãos de São Miguel Arcanjo).


O Fitar Fascinante das Chamas

Ilustração 02
O Clérigo Dom Clemêncio Gárdio
 da Igreja de São Clementino da Luz em Donlis.
Na cidadela de Donlis, Galiul e Nárccio seguiram para Casa de Deus - a Igreja de São Clementino da Luz -, onde foram acolhidos por um monge chamado Dom Clemêncio Gárdio. Nessa igreja havia outras dez crianças, mas elas aparentemente não eram felizes, e, não tardaria para que os dois novatos descobrissem os motivos dessa infelicidade.

Dom Clemêncio, era um homem temido pelo conhecimento que detinha das pessoas, e de como os dominava, por meio de uma língua afiada que rivalizava com a do próprio diabo. Conseguia com facilidade obter daqueles que o procuravam os seus segredos mais profundos, tornando-se assim, servos incondicionados. Pouquíssimos se arriscavam a desafiá-lo, e, quando o faziam eram sentenciados a morte pelos demais populares. Dono de uma fortuna e uma quantidade de terras considerável, ele vivia uma vida muito diferente de um monge religioso, pelo contrário, vivia em constante pecado. Tinha muitos filhos dentre as camponesas, molestava crianças, jogava compulsivamente, cometia assassínios, e, embriagava-se com certa frequência.

Dias se passaram, assim como semanas e meses, e nada de Joan surgir para leva-los embora daquele lugar. E antes que Galiul e Nárccio pudessem escapar das garras de Dom Clemêncio, eles foram rebatizados como Maria e João de Deus, pois era dessa maneira arrogante que o monge se referia a todos os seus filhos bastardos que viviam debaixo do mesmo teto. Todos aqueles que o desafiavam eram duramente açoitados, humilhados e repreendidos.

Bem antes de Galiul completar as suas treze primaveras, ela ganhou de presente de Don Clemêncio a sua primeira e agourenta relação sexual. Nárccio não sabia ao certo o que se sucedia por não estar nas mesmas dependências de sua amiga, mas chorou copiosamente ao ouvi-la em prantos, os seus gritos de dor que ecoavam pelas paredes daquele lugar abominável, e onde por entre as fretas só lhe era permitido ver as indecifráveis e vultosas sombras que se moviam assombrosamente ao dançar das chamas nas tochas presas a parede do cômodo enquanto o horrendo ato era consumado.

Ilustração 03
Galiul de Aggorá “Maria de Deus”,
 amiga e responsável pela vida de Nárccio.
Horas se passaram até que Galiul foi levada desacordada para junto das demais crianças. A sua roupa era uma vestimenta em trapos que mal a cobria, sua pele havia sido açoitada, e, entre as suas pernas corria uma sangria descomunal. A mulher mais velha que a trouxe em seus braços disse fitando Nárccio nos olhos:

- Cuidem vocês dela, crianças imundas, e, logo, antes que ela morra pela displicência de vocês! Tenham a certeza de que se isso ocorrer o pai não será tão generoso!!!

Todos aquelas sofridas e estranhas crianças se mobilizaram para tentar cuidar de Galiul, dos mais novos aos mais velhos. Nárccio, como ainda era muito pequeno estava sob os cuidados de uma criança mais velha, e juntos assistiam a recuperação da outra que se manteve desacordada por dias sobre a cama, até que acordou durante a noite em um acesso de febre e delírios que assustou a todos. Naquela mesma madrugada, a menina foi levada por um carroceiro a pedido do monge para um lugar desconhecido onde seria medicada e tratada.

Semanas se passaram até que Galiul retornasse a Igreja de São Clementino da Luz. O olhar da menina estava disperso no infinito, o andar desajeitado e amedrontado, somente reencontrou firmeza e direção quando pôde ter Nárccio nos braços. Todas as demais crianças a abraçaram calorosamente. O retorno dela também foi apreciado por Dom Clemêncio que três noites depois de sua volta, exigiu-a novamente em seus aposentos, revezando ela com outras cinco desafortunadas meninas.

Uma das meninas mais velhas que durante muito tempo tramava as escondidas uma vingança contra o monge, convidou Galiul a fazer parte de um plano mortal, algo do qual ela não hesitou fazer parte em compor. Quase um ano se passou após essa decisão. Até que em uma noite de inverno algo triunfal aconteceu...

Todo o grupo de revoltados se reuniu em uma árdua e perigosa tarefa que consistiu em dominar os domínios do clérigo. Primeiramente, as meninas se insinuaram para os capangas, e, quando estes seduzidos se distraíram afoitos em possuí-las, eles foram repentinamente desacordados por pancadas certeiras na parte de trás da cabeça. Depois, seguiram se as mulheres mais velhas que viviam com o monge, e que foram dopadas com ervas e amordaçadas junto as colunas do cômodo que era a dispensa. Por último, e, não menos importante, o grande algoz – Dom Clemêncio -, que também foi seduzido, embriagado, preso com grossas cordas, e posto de costas com as suas pernas arqueadas em seu leito de modo que pudesse sentir por meio de seu orifício anal toda a dor que ele promoveu em anos aos seus inúmeros filhos bastardos... Nem todos preferiram ficar até o término do espetáculo, aproveitaram o momento para se evadir do lugar (era madrugada). Contudo, Galiul não se sentiria realizada se partisse antes da consumação de todo o plano. Ela ajudou a espalhar os tecidos rasgados, a quebrar os móveis de madeira e jorrar o óleo inflamável sobre as peças.

Enquanto a igreja e o casarão anexo eram consumidos rapidamente pelo fogo que se alastrava facilmente, as crianças afugentadas e felizes corriam pelas ruas de Donlis, e, alguns dos moradores que moravam ali próximo, embora demonstrassem espanto com o tamanho das labaredas que rasgavam o céu, nada fizeram para tentar impedir aquele incêndio, como se aquele evento já fosse durante muito tempo ansiado. As duas crianças assistiam concentradas aquele espetáculo de ardência. Nárccio olhava para as chamas como se estivesse hipnotizado, e, isso de certa forma também se multiplicava no olhar de Galiul, que falou quebrando aquele relativo silêncio somente abalado pelo barulho do desabar das estruturas e dos gritos quase inaudíveis oriundos do interior daquele lugar que um dia fora a morada deles:

- Nós temos que amar as chamas, João, pois, elas consomem tudo, inclusive a dor das lembranças.


Em busca de um novo começo

Após o episódio do incêndio da igreja, as crianças de São Clementino da Luz foram convidadas pelos moradores da cidadela de Donlis a se retirarem o mais breve possível, antes que alguém viesse reivindicar vingança ou apurar os fatos. Os populares inclusive custearam uma passagem de barcaça através do Rio Smoke para além das fronteiras de Caithness.

Desde o incidente do primeiro estupro, Galiul nunca mais foi a mesma, tanto que ela se esquecera de seu nome – ou preferiu não mais lembra-lo -, referindo-se a si mesma como Maria de Deus, e, assim também o fez com Nárccio, a quem passou a chamar de João de Deus. Desde o seu retorno ao casarão, eram frequentes os pesadelos ao longo da noite, nos quais acordava muito assustada e choramingava a tragédia vivida. João não entendia a enfermidade que a sua amiga vivia, mas sabia que o seu abraço em muito a confortava. Os dois só tinham um ao outro, e, por tal motivo, ela o defendia com unhas e dentes, mesmo quando ele estava errado.

Na viagem pelo Rio Smoke, João e Maria conheceram Jammes Debberus, um homem de aparência misteriosa, que fazia uso de um tapa olho na vista esquerda, cuja habilidade especial dele era se misturar em meio a multidão de maneira a se fazer desapercebido, e que ao longo de todo trajeto se aproveitou de tal artifício para saquear um a um daqueles passageiros que usufruíam do transporte fluvial. Assim, que esse misterioso ladino foi abordado e inquirido por Maria, ele se sentiu ameaçado e compelido a sair imediatamente daquele lugar, antes que algo de pior lhe ocorresse. No dia seguinte, Jammes evitou perambular pelo convés da barcaça abrigando-se em um esconderijo improvisado, e, assim se manteve ao longo de quatro dias. No entanto, quando a sua compulsão em roubar apitou estrondosamente em sua mente, ele sai desesperadamente daquele fétido cubículo, porém, as duas crianças já o aguardavam para seu desconforto total. Nervoso e fora de si, ele tomou os dois pelos braços, e, caminhando em passos acelerados os carregou em direção ao fundo da barcaça disposto a arremessa-los no rio. Eis que nesse momento, a menina começou a gritar de maneira estridente e incessante por:

- Papai! Papai! Papai! Por favor, não nos bata! Prometemos não fazer mais nenhum tipo de mau criação... – Maria, esperneava e batia os pés enquanto era puxada firmemente pelo braço.

João ao ver aquilo, também começou a imitar a sua irmã. E, logo os três atraíram a atenção de alguns tripulantes que logo se aproximaram para averiguarem o que se passava. Jammes se viu totalmente acuado com vários olhares pousados sobre ele... Isso o deixou atônito e trêmulo. Maria ao perceber o que a sua ação desencadeou naquele homem esguio e estranho, rapidamente simulou uma espécie de perdão, abraçando-o.

Ilustração 04
Jammes Debberus, O Ladino de Face Enigmática.
As pessoas com o tempo dispersaram os olhares dos três. Porém, para Jammes o seu trabalho naquela barcaça havia se encerrado, uma vez que seu rosto tornara-se conhecido. Desolado ele foi para um canto, e lá ficou a esperar até que a embarcação atracasse no próximo cais para descer. João e Maria a partir daquele momento o seguiram por todos os lados, mantendo-se próximos a ele. Por mais que em sua mente lhe ocorresse à possibilidade de assassinar aquelas duas criaturas peçonhentas que arruinaram o seu trabalho de meses, este era um ladino incapaz de matar alguém, a não ser que este último o colocasse em uma situação de extrema tensão.

A alguns dias de viagem da cidade de Craine, Jammes desceu no cais de um grande vilarejo, e, como senão bastasse, João e Maria o acompanharam sem o seu consentimento. Ele entrou em uma estalagem, pediu um quarto, e, do alto na janela frequentemente passava o olhar observando os dois que montaram guarda em frente ao local onde se alojou. Aquilo o deixou bastante agoniado, e tinha que arranjar uma maneira de se desvencilhar deles antes que arruinassem a sua vida.

Durante oito dias Maria e João ficaram próximos a estalagem, mendigando refeições na rua, dormindo ao relento e tentando observar o seu alvo, sem perder o foco. Contudo, no término do último dia, quando o dono do local foi abordado por Maria em prantos avisando que aquele homem era o pai desnaturado deles que durante muito tempo estava fugido de casa, o senhorio da hospedaria comovido falou que aquele viajante havia pago por dois dias, mas que, no final do primeiro já havia partido sem deixar rastros, Maria ficou pasma e desnorteada com aquela informação.

Hilda Noir, uma belíssima mulher que estava de passagem naquele vilarejo, e de partida da hospedaria naquele momento não pôde deixar de ouvir a história contada por Maria para o Senhorio do lugar, e, sobretudo, como a pequena havia ficado assombrada com a notícia de que o pai mais uma vez tinha abandonado a eles. Ela esperou ficar a sós com os dois para oferecer uma oportunidade de vida:

- Jovem, desculpe minha intromissão – retirando um lenço da bolsa e enxugando as lágrimas da face de Maria -, mas não pude deixar de ouvir a triste história de sua família. Confesso que em muito me tocou, pois, também se assemelha a minha própria que ainda muito cedo também me tornará órfã. Vejo que você e o seu irmão não parecem ter muita coisa além das vestimentas em frangalhos que trajam, sendo assim, gostaria de lhes pagar uma refeição e aproveitar o momento para conversarmos sobre a possibilidade de mudarem de vida.

Embora Maria se sentisse receosa em aceitar o convite de Hilda, ela estava com muita fome, e, ficou ainda mais compelida em fazê-lo pela vida de João. À medida que os dois irmãos se alimentavam, A distinta senhorita aproveitava para contar lhes a história de sua vida, algo tão comovente, agourento e maldito como os dias deles em Donlis, o que fez com que a menina desse crédito para aquela mulher de olhar penetrante e beleza intrigante, ao ponto de se dispor aceitar qual fosse a oportunidade que a mesma tinha a lhes oferecer.

A proposta de Hilda era que Maria se tornasse uma de suas damas em sua morada na cidade de Craine, e o seu irmão enquanto não tivesse idade suficiente para exercer alguma atividade no lugar, ficasse juntamente com as demais crianças filhos de servos do seu lorde. A proposta agradou a Maria, que estava convicta de que aquela mulher tinha o melhor a lhes oferecer.

Quando a carruagem de Hilda Noir correu as ruas em direção à saída do vilarejo, Maria ainda aproveitou para dar uma rápida observada na cidade a fim de avistar o estranho homem que os tinha colocado naquela situação. No entanto, o seu desejo não foi correspondido, e, o seu agradecimento se deu em silêncio, seja lá quem ele fosse.


Dias e Noites sob as Graças de Noir

Ilustração 05
A belíssima Cortesã, Hilda Noir,
 Senhora do Palacete das Orquídeas de Noir.
Em Craine, Maria tomou conhecimento de que ela era mais uma dentre muitas outras jovens garotas que serviam a cortesã Hilda Noir e ao seu consorte, o Marquês Paul Zimmerman. Um grupo formado por cerca de quarenta mulheres que serviam aos interesses lascivos do casal, cujo trabalho delas era propiciar prazer sexual das mais variadas e inimagináveis formas aos convidados da corte. Mais uma vez Maria se viu ludibriada por mentiras e emboscada, pois, nesse contexto, João lhe foi retirado dos seus cuidados e feito refém.

Com o tempo, Maria ficou sabendo que as crianças eram mantidas em um casarão distante da cidade, de propriedade do marquês, e que lá eram aproveitadas para os afazeres domésticos em regime escravocrata. Havia rumores de que as crianças que não se adaptavam a nova vida eram comercializadas. As meninas bonitas e de agrado de Hilda eram trazidas para servirem no palacete, enquanto que os meninos mais leais eram libertos e contratados para servirem a tropa pessoal do marquês, quando não seguiam seu próprio caminho.

Maria tinha receio de que João viesse a saber no que ela havia se tornado, ou ainda, que o mesmo fosse trago para trabalhar naquele lugar – O Palacete das Orquídeas de Noir. Ela não se conformava com aquele tipo de vida, mas não podia demonstrar desagrado, sobretudo, diante de algum convidado, pois, os piores castigos aplicados por Hilda eram voltados contra o seu irmão.

A maioria das meninas que trabalhavam no palacete estava ali em situação semelhante à de Maria. Jovens que foram arrebatadas abruptamente de seus lares ainda muito novas, compradas como escravas para garantir a renda de familiares necessitados, desalmados ou desafetos; meninas que foram seduzidas por estórias de sofrimento e que se transformaram em algo infinitamente melhor; e, jovens que tiveram seus bebes retirados de seus braços e conduzidos a seguir um caminho distante, mas sob a promessa de que o seu esforço entre as quatro paredes do Palacete estaria a garantir a prosperidades de seus amados rebentos. Dependendo do comportamento e da renda propiciada ao longo de um período ao Palacete, os senhorios permitiam as suas servas um dia de reencontro com os familiares próximos, sobretudo, as crianças, contudo, sempre na companhia de um guarda do marquês.

Para não serem abatidas pela depressão, stress e outros infortúnios decorrentes da alma fragilizada, Hilda distribuía entre as suas servas uma poderosa droga alucinógena chamada de Acalanto de Morfeu. E, está foi uma solução adotada por Maria para calar a dor que rompia em seu peito. Pois,ao contrário das crianças da Igreja de São Clementino da Luz, suas novas companheiras não se sentiam tão abatidas por ali estarem condicionadas a escravidão sexual ao ponto de se rebelarem e fugirem, uma vez que, muitas delas antes daquele lugar estavam em situação bem mais precária. O fato é que, muitas delas encontraram no Palacete das Orquídeas de Noir todo o conforto e segurança que talvez nunca sequer almejassem em sonho.


Promessa de Morte

João de Deus tinha um dom empático com os animais surpreendente que o tornou querido entre os seus companheiros, e, todavia, invejado por outros, dentre esses estava Luzmmonarca, um dos filhos bastardos do Marquês Zimmerman e um dos responsáveis pela ordem entre os vassalos que viviam na propriedade.

Ilustração 06
Luzmmonarca, o Algoz de João de Deus
 na fazenda do Marquês Zimmerman,
 além de um filho bastardo deste último.
Luzmmonarca se aproveitava da hiperatividade de João para castigá-lo, e quando o mesmo não dava motivos para tais condenações, o seu carrasco criava situações para fazê-lo. Geralmente, ele o açoitava o torturando psicologicamente com maledicências do tipo:

- Quem pensa que és João do Diabo?!?! Aqui és somente mais um filho desgarrado de uma das rameiras que trabalham e vivem no Palacete Luxurioso de Madame Hilda, prostituindo-se, bebendo e comento do bom e do melhor, enquanto você e todos os outros estão aqui para assegurar a mordomia de mulheres que vivem em pecado e que não percebem o martírio diário para aqueles que estão do outro lado destes muros tenebrosos, distantes, e solitários! Seu verme miserável, aqui sou aquele que lhe permitirá a vida, portanto, respeita-me com o louvor de um servo fiel!

João não entendia algumas das palavras proferidas pelo seu malfeitor, assim como também o motivo de sua revolta para com ele, mas o que mais lhe feria não era a dor produzida pelos açoites incessantes de Luzmmonarca, porém, a distância imposta entre ele e a sua irmã, Maria, cujo desconhecia o paradeiro, senão por aquilo pronunciado pelo seu algoz.

Passado cerca de um ano após a sua chegada a fazenda, João de Deus e um grupo de crianças selecionadas por uma mulher desconhecida foram conduzidos para fora da propriedade onde eram mantidos cativos por meio de algumas carroças em direção a um suntuoso palacete recolhido as margens de uma grande cidade do reino – Craine. Quando lá chegaram, eles foram deixados livres em um pátio interno, obscuro, ricamente adornado com estátuas de mulheres nuas, plantas exóticas, grama verdejante, e, vigiados por pavorosas criaturas que se assemelhavam a homens, mas não eram completamente humanos, por terem como características: cascos nos pés, calda, chifres sobre a testa, focinho e um olhar penetrante.

Quando as crianças ouviram um peculiar ranger de portas, oriundo de um dos lados do pátio, e delas surgirem mulheres pelas quais aguardavam revê-las ansiosamente por infindáveis dias, logo, os pequeninos correram desesperadamente em direção das jovens como se as suas vidas dependessem daquele encontro. João de Deus, quase não reconheceu Maria, pois, suas feições, a silhueta de seu corpo e o seu olhar eram outros – algo havia mudado em sua irmã -, contudo, o olhar e o sorriso da jovem ganharam a forma típica da lembrança quando ela o viu, acolhendo-o em seus braços em um afago longo e choroso.

Daquele dia e das palavras pronunciadas por Maria carregadas de emoção, João de Deus lembrava-se claramente da promessa feita por ela olhando dentro de seus olhos, com os mesmo repletos de lágrima:

- Ainda não sei como nos tirar deste lugar, e longe das garras dessas pessoas, mas prometo que tenho buscado todos os meios possíveis para nos ver livre disso, e voltarmos a ser uma família novamente.

Com um forte abraço, aquele momento e aquelas palavras foram encerradas em um silêncio que perduraria por tempo inimaginável. João de Deus era muito jovem para compreender todas as dificuldades que os envolviam, mas de algo tinha certeza: que gostaria muito de estar ao lado de Maria.

Na fazenda do Marquês Zimmerman, João cresceu sobre um clima que alternava constantemente entre estima, indiferença, respeito, inveja, preconceito, hostilidade, tranquilidade, violência, e batalhas diretas.

Transcorrido cerca de dois anos após o encontro com Maria no distante Palacete na Cidade de Craine, Luzmmonarca, em uma posição destacável, chamou a sua presença João, para encher seus ouvidos com uma infausta mentira que mudaria para sempre a sua vida dentro daqueles muros:

- Morreu já faz uns três dias a sua benfeitora, João, e, acredite, não foi algo tão agradável de se presenciar, pois, ela já agonizava há semanas sob o um leito afastado das demais rameiras, de modo que não contagiasse para as demais companheiras... Dizem que Ela havia sido contaminada por uma doença que somente as mulheres de sua laia poderiam proliferar, alguma coisa que se devia ao fato delas abrirem as pernas para tudo quanto é tipo de criatura que tenha um falo.

Pasmo, João desacreditava insistentemente naquela noticia balançando a cabeça em sentido de negação. Ele estava incrédulo quanto aquelas palavras vindas de seu algoz. Contudo, a farsa também era sustentada por alguns outros que ali estavam, e, Luzmmonarca para reforçar ainda mais aquele estado de choque em sua vitima, empurrou um baú com os pés para próximo de João.

- Aqui estão alguns pertences pessoais dela, cujas companheiras recolheram e guardaram para lhe entregar. Dúvido, verme, que algo lhe sirva, mas se quiser fazer uso, saiba que aqui na fazenda outros entenderam.

João de Deus saiu daquele cubículo em prantos e com o baú de Maria abraçado contra o peito. Ele tinha certeza de que aquele item pertencia a ela, pois, o cheiro que ele exalava lembrava o perfume que ela possuía em seu último encontro, algo que remetia o pensamento a uma delicada flor existente no jardim da marquesa.

Esse tipo de mentira era algo que o Marquês Zimmerman tinha como prática para garantir que os seus vassalos mais jovens não desviassem a atenção do trabalho dentro de suas propriedades feudais, ou ainda, que se aventurassem desnecessariamente por caminhos obscuros e mortais que compreendia a derradeira verdade. E, o que geralmente acontecia com sucesso entre as crianças, ainda que por meio de um estado catatônico de conformidade a aflorar na adolescência.

Deste dia em diante João de Deus mudou. Passou a almejar mais do que tudo a paz e a liberdade pela qual Maria tanto buscou para os dois. E para isso, ele evitaria cometer qualquer falha que pusesse a sua vida em risco, porém, esforçar-se-ia ao máximo para abandonar aquela vida de amargas migalhas e dissabores para sempre.


Despedida de um Inferno

No término de sua adolescência, João conheceu ainda na fazenda do marquês um homem chamado Heitor Ulbier, este além de um exímio fornecedor e tratador de animais, tinha também um dom para reconhecer talentos natos, algo do qual ele falou as escondido no pé de seu ouvido. O caçador de animais costumava se dirigir a fazenda em um intervalo de quatro à seis meses para negociar as melhores montarias que dispunha com o milorde Zimmerman. De certa forma, aquele apreço oriundo daquele homem nutriu algum tipo de esperança no âmago de João de Deus.

Ilustração 07
Heitor Ulbier, O Caçador de Animais que
 libertou João de Deus dos muros de Zimmerman
 e o introduziu em uma vida de aventuras.
Ulbeir trabalhava com uma equipe de homens e semi-humanos que o acompanhavam em suas arriscadas aventuras. E, sempre que o Caçador de Animais estava na fazenda, João tratava de se aproximar para ver o que ele trazia de novo em sua bagagem, além da oportunidade de ouvir seus impressionantes relatos.

Luzmmonarca e Heitor Ulbier não se gostavam. De fato, o primeiro não gostava de ninguém, e, era mal reputado entre os empregados da fazenda de Zimmerman, por inúmeros crimes, sobretudo, abuso de violência, maus tratos, estupros e mortes. O algoz de João tratava o caçador como um fanfarrão, dissimulado, mentiroso e caloteiro, ainda que no fundo nutrisse por ele um desmedido sentimento de inveja. Embora houvesse esse desafeto, quem estava acima daquela rincha pessoal entre os dois se colocava a favor de Ulbier, que era o próprio Marquês, que embora conhecesse bem o mercador e a fama que o precedia, nunca viveu com ele nenhum atrito que o desabonasse.

A afinidade de Ulbier com João de Deus tomou tamanha proporção que o caçador em certa negociação com o marquês propôs a troca de alguns animais pela vida do jovem, Como milorde Zimmerman nunca foi alguém apegado a pessoas, exceto a sua amante Hilda Noir, não hesitou em aceitar o trato. Essa negociação aparentemente pacifica entre as partes tomou uma proporção dantesca ao chegar aos ouvidos do bastardo que conhecia o faro apurado de seu inimigo e também a habilidade de João, que era naquele lugar o mais habilidoso no tratamento dos animais. Sendo assim, Luzmmonarca tinha que tomar uma atitude antes que o dia amanhecesse e eles pudessem partir.

Naquele mesmo dia já pela madrugada, Luzmmonarca foi juntamente com mais dois dos seus comparsas até o cômodo onde ficavam alojados os homens da fazenda para sequestrar João de Deus. E, assim eles o fizeram, arrancando o jovem a força da cama a qual descansava, prendendo firmemente os seus braços e amordaçando a sua boca. João ficou sem entender o que se passava por algum tempo, enquanto ele era arrastado pelos braços, até que se deu conta de que aquele gesto violento de seus agressores estivesse vinculado a conversa que ele havia tido horas atrás no cair da noite com Ulbier, que na ocasião o questionou:

- Você está preparado para viver como um desbravador de aventuras, filhote?

E João de Deus bem se lembrava de que maneou a cabeça em afirmação a pergunta, consentindo com o desejo de ser aquilo que Ulbier pressentia ser o seu futuro longe daqueles muros. O Jovem com um sorriso trêmulo, em função do sentimento ambíguo de felicidade e temor ao horizonte de possibilidades que lhe afrontavam o pensamento lógico.

João sentiu quando o seu corpo foi arremessado sobre o lombo de um cavalo de qualquer jeito, e, antes que o cavaleiro pudesse montá-lo para partir em fuga, o pequeno grupo de sequestradores foi abordado por um outro bando de desconhecidos, que na penumbra da noite se limitavam a sombras e vozes abafadas por capuzes, cujo o que se falava não era muito bem compreendido. Não tardou para que um combate entre os captores de João e o outro grupo inicia-se, de maneira rápida e mortal.

Quando João de Deus se deu conta, sendo desvencilhado das cordas e mordaças que o prendiam por mãos alheias as suas, ele percebeu que o outro grupo que havia intervido a ação de Luzmmonarca não eram desconhecidos, e sim, eram parte dos homens que seguiam Ulbier em suas empreitadas. E, ali mesmo ficou sabendo de que aquela fatalidade somente aconteceria se o seu captor hesitasse lhe entregar, não por vontade de Ulbier, mas do próprio Marquês. João de Deus olhou para o que havia sobrado de seu algoz jazido no chão sem vida, e, se espantou com a profundidade dos cortes, que por muito pouco não o decapitaram.

Os restos de Luzmmonarca e de seus comparsas foram arremessados em um uma profunda trincheira encoberta por água próxima aos muros da propriedade do Marquês, que era conhecido por estar infestada de piranhas mortíferas e insaciáveis.