Bem-Vindo Errante Viajante

Do Olimpo trago a almejada chama, da qual sugiro dançarmos embriagados a sua volta, e quando assim for, sujiro arriscar tocá-la, pois, felizes os que dela se queimarem.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Saga dos Bravos de Orion - João de Deus - Parte I


João de Deus, O Infausto Embusteiro.
Natural do Reino de Caithness (Continente de Ytarria).
Nascido sobre o signo de Áries
Ofício: Ladrão/Mercenário


Prólogo de um Herói

Ilustração 01
Outrora este era Nárccio Narcellus de Denton,
que futuramente seria conhecido por toda Ytarria,
 como “João de Deus”, O Infausto Embusteiro.
Nárccio era o filho caçula de uma família de miseráveis camponeses que vivia no condado de Simonton (Reino de Caithnness) nas proximidades da fronteira entre o reino de Caithness, o Grande Deserto e a Grande Floresta.

Poucos anos após o nascimento de Nárccio, o Conde Walton de Simonton nada satisfeito com os tributos recolhidos de seu povo e os recorrentes assaltos as suas caravanas mercantis que percorriam o Rio Smoke, resolveu baixar um decreto nas quais todas as famílias que estavam a viver em seus domínios deveriam lhe prestar uma singela homenagem como desculpas pela incompetência de sua produção e o desagrado ao seu senhorio. E, essa oferta a maior era a entrega de seus filhos homens.

Era sabido pela mãe de Nárccio, que trabalhava dentro do palacete do Conde, que o mesmo não tinha boas intenções com os filhos. Pois, eram frequentes os rumores entre os servos de que Walton molestava com violência sexual os mais novos. Tendo muitos dos corpos desses inocentes jogados ao canil como alimento aos cães de sua guarda, assim como também a transação comercial dos sobreviventes e dos mais velhos como escravos para alguns nobres dos baronatos vizinhos de Denton e Ferrier.

Antes que os soldados deixassem o palácio do Conde a fim de cumprirem a ordem superior que lhes foi delegada, Mayrah partiu ao encontro de seu esposo, Joan Narcellus, para lhe dizer que restava pouquíssimo tempo até que os meninos fossem lhes tirados do braço para uma atrocidade maior, e, que, portanto, se fossem fazer algo eles não deveriam tardar mais.

Joan Narcellus conseguiu uma montaria, alguns mantimentos, e, antes que deixasse furtivamente o condado, ele foi abordado por João de Aggorá – uma pessoa a qual Joan nutria grande respeito e admiração, pois sempre viu nele um amigo -, e em soluços este homem aparentemente forte, o suplicou:

- Joan não sei para onde levarás o seu pequenino, mas bem sei que é para buscar algo melhor do que estes muros podem ofertar, portanto, não me falte nessa hora, meu amigo, pois, sei que não tardará para que o Conde e seus vassalos venham requerer a minha pequena Galiul, que no próximo ano estará a completar treze primaveras. Por favor, eu lhe imploro. – João se pôs de joelhos com lágrimas nos olhos e agarrados a calça de Joan.

Joan, comovido por tal gesto, prontamente colocou o amigo de pé, e aceitou sem pestanejar o seu apelo que lhe fizeram marejar os olhos.

Antes que amanhecesse por completo, Joan partiu acompanhado de seu filho e da filha de João. Ele tinha conhecimento de que o local mais seguro a se seguir seria em direção a cidade de Nova Jerusalém no reino de Mégalos fazendo o percurso às margens do Rio Smoke, contudo, sabia também que a rota não era fácil. Pois, o mesmo já havia feito este trajeto em outros momentos na condição de carroceiro mercante, e por várias vezes o grupo em que esteve foi abordado por ladinos errantes.

Joan se esforçava ao máximo para não denunciar a passagem deles, contudo, ele não havia sido treinado para aquela tarefa, e para aqueles que já estavam na rota ha muito tempo, e, sobreviviam de atos sórdidos e ilícitos, não tardou para que houvesse os primeiros encontros. Em menos de cinco dias de cavalgada ele e as crianças conseguiram escapar de duas abordagens diretas, mas, no décimo terceiro dia os três foram apanhados de surpresa por um grupo de cinco goblins e três cães liderados por um meio-orc. Ele só teve tempo suficiente para montar as crianças no cavalo e dar ordem para que seguissem direto, enquanto ele enfrentava corajosamente munido apenas de sua espada curta aqueles hostis ladinos.

Desde a partida de Simonton até aquele momento crucial de separação, Galiul (12 anos) já se sentia a cerca de pouco mais de uma semana como se fosse a mãe do pequeno Nárccio (3 anos) tomando para si a responsabilidade de cuidar dos dois.

Galiul fez como Joan havia lhe dito: seguiram com cautela pelo caminho as margens do Rio Smoke, sempre tentando se afastar ou se esconder de grupos e possíveis criaturas que se aproximassem, até que alcançaram a pequena cidadela de Donlis, desprovidos do alazão em função do mesmo ter adoecido devido ao esforço da jornada. Antes de se separarem, o pai de Nárccio ainda a orientou de que quando chegassem ao próximo povoado deveriam se dirigir rapidamente a Casa de Deus, e pedir acolhimento ao santo padre, e, lá aguardassem pela chegada dele. Contudo, caso ele demorasse em aparecer, deveriam os dois pedir ao padre que os encaminhassem com segurança para a cidade de Nova Jerusalém em Mégalos a um lugar chamado Casa das Crianças de São Miguel (Doce Lar dos Órfãos de São Miguel Arcanjo).


O Fitar Fascinante das Chamas

Ilustração 02
O Clérigo Dom Clemêncio Gárdio
 da Igreja de São Clementino da Luz em Donlis.
Na cidadela de Donlis, Galiul e Nárccio seguiram para Casa de Deus - a Igreja de São Clementino da Luz -, onde foram acolhidos por um monge chamado Dom Clemêncio Gárdio. Nessa igreja havia outras dez crianças, mas elas aparentemente não eram felizes, e, não tardaria para que os dois novatos descobrissem os motivos dessa infelicidade.

Dom Clemêncio, era um homem temido pelo conhecimento que detinha das pessoas, e de como os dominava, por meio de uma língua afiada que rivalizava com a do próprio diabo. Conseguia com facilidade obter daqueles que o procuravam os seus segredos mais profundos, tornando-se assim, servos incondicionados. Pouquíssimos se arriscavam a desafiá-lo, e, quando o faziam eram sentenciados a morte pelos demais populares. Dono de uma fortuna e uma quantidade de terras considerável, ele vivia uma vida muito diferente de um monge religioso, pelo contrário, vivia em constante pecado. Tinha muitos filhos dentre as camponesas, molestava crianças, jogava compulsivamente, cometia assassínios, e, embriagava-se com certa frequência.

Dias se passaram, assim como semanas e meses, e nada de Joan surgir para leva-los embora daquele lugar. E antes que Galiul e Nárccio pudessem escapar das garras de Dom Clemêncio, eles foram rebatizados como Maria e João de Deus, pois era dessa maneira arrogante que o monge se referia a todos os seus filhos bastardos que viviam debaixo do mesmo teto. Todos aqueles que o desafiavam eram duramente açoitados, humilhados e repreendidos.

Bem antes de Galiul completar as suas treze primaveras, ela ganhou de presente de Don Clemêncio a sua primeira e agourenta relação sexual. Nárccio não sabia ao certo o que se sucedia por não estar nas mesmas dependências de sua amiga, mas chorou copiosamente ao ouvi-la em prantos, os seus gritos de dor que ecoavam pelas paredes daquele lugar abominável, e onde por entre as fretas só lhe era permitido ver as indecifráveis e vultosas sombras que se moviam assombrosamente ao dançar das chamas nas tochas presas a parede do cômodo enquanto o horrendo ato era consumado.

Ilustração 03
Galiul de Aggorá “Maria de Deus”,
 amiga e responsável pela vida de Nárccio.
Horas se passaram até que Galiul foi levada desacordada para junto das demais crianças. A sua roupa era uma vestimenta em trapos que mal a cobria, sua pele havia sido açoitada, e, entre as suas pernas corria uma sangria descomunal. A mulher mais velha que a trouxe em seus braços disse fitando Nárccio nos olhos:

- Cuidem vocês dela, crianças imundas, e, logo, antes que ela morra pela displicência de vocês! Tenham a certeza de que se isso ocorrer o pai não será tão generoso!!!

Todos aquelas sofridas e estranhas crianças se mobilizaram para tentar cuidar de Galiul, dos mais novos aos mais velhos. Nárccio, como ainda era muito pequeno estava sob os cuidados de uma criança mais velha, e juntos assistiam a recuperação da outra que se manteve desacordada por dias sobre a cama, até que acordou durante a noite em um acesso de febre e delírios que assustou a todos. Naquela mesma madrugada, a menina foi levada por um carroceiro a pedido do monge para um lugar desconhecido onde seria medicada e tratada.

Semanas se passaram até que Galiul retornasse a Igreja de São Clementino da Luz. O olhar da menina estava disperso no infinito, o andar desajeitado e amedrontado, somente reencontrou firmeza e direção quando pôde ter Nárccio nos braços. Todas as demais crianças a abraçaram calorosamente. O retorno dela também foi apreciado por Dom Clemêncio que três noites depois de sua volta, exigiu-a novamente em seus aposentos, revezando ela com outras cinco desafortunadas meninas.

Uma das meninas mais velhas que durante muito tempo tramava as escondidas uma vingança contra o monge, convidou Galiul a fazer parte de um plano mortal, algo do qual ela não hesitou fazer parte em compor. Quase um ano se passou após essa decisão. Até que em uma noite de inverno algo triunfal aconteceu...

Todo o grupo de revoltados se reuniu em uma árdua e perigosa tarefa que consistiu em dominar os domínios do clérigo. Primeiramente, as meninas se insinuaram para os capangas, e, quando estes seduzidos se distraíram afoitos em possuí-las, eles foram repentinamente desacordados por pancadas certeiras na parte de trás da cabeça. Depois, seguiram se as mulheres mais velhas que viviam com o monge, e que foram dopadas com ervas e amordaçadas junto as colunas do cômodo que era a dispensa. Por último, e, não menos importante, o grande algoz – Dom Clemêncio -, que também foi seduzido, embriagado, preso com grossas cordas, e posto de costas com as suas pernas arqueadas em seu leito de modo que pudesse sentir por meio de seu orifício anal toda a dor que ele promoveu em anos aos seus inúmeros filhos bastardos... Nem todos preferiram ficar até o término do espetáculo, aproveitaram o momento para se evadir do lugar (era madrugada). Contudo, Galiul não se sentiria realizada se partisse antes da consumação de todo o plano. Ela ajudou a espalhar os tecidos rasgados, a quebrar os móveis de madeira e jorrar o óleo inflamável sobre as peças.

Enquanto a igreja e o casarão anexo eram consumidos rapidamente pelo fogo que se alastrava facilmente, as crianças afugentadas e felizes corriam pelas ruas de Donlis, e, alguns dos moradores que moravam ali próximo, embora demonstrassem espanto com o tamanho das labaredas que rasgavam o céu, nada fizeram para tentar impedir aquele incêndio, como se aquele evento já fosse durante muito tempo ansiado. As duas crianças assistiam concentradas aquele espetáculo de ardência. Nárccio olhava para as chamas como se estivesse hipnotizado, e, isso de certa forma também se multiplicava no olhar de Galiul, que falou quebrando aquele relativo silêncio somente abalado pelo barulho do desabar das estruturas e dos gritos quase inaudíveis oriundos do interior daquele lugar que um dia fora a morada deles:

- Nós temos que amar as chamas, João, pois, elas consomem tudo, inclusive a dor das lembranças.


Em busca de um novo começo

Após o episódio do incêndio da igreja, as crianças de São Clementino da Luz foram convidadas pelos moradores da cidadela de Donlis a se retirarem o mais breve possível, antes que alguém viesse reivindicar vingança ou apurar os fatos. Os populares inclusive custearam uma passagem de barcaça através do Rio Smoke para além das fronteiras de Caithness.

Desde o incidente do primeiro estupro, Galiul nunca mais foi a mesma, tanto que ela se esquecera de seu nome – ou preferiu não mais lembra-lo -, referindo-se a si mesma como Maria de Deus, e, assim também o fez com Nárccio, a quem passou a chamar de João de Deus. Desde o seu retorno ao casarão, eram frequentes os pesadelos ao longo da noite, nos quais acordava muito assustada e choramingava a tragédia vivida. João não entendia a enfermidade que a sua amiga vivia, mas sabia que o seu abraço em muito a confortava. Os dois só tinham um ao outro, e, por tal motivo, ela o defendia com unhas e dentes, mesmo quando ele estava errado.

Na viagem pelo Rio Smoke, João e Maria conheceram Jammes Debberus, um homem de aparência misteriosa, que fazia uso de um tapa olho na vista esquerda, cuja habilidade especial dele era se misturar em meio a multidão de maneira a se fazer desapercebido, e que ao longo de todo trajeto se aproveitou de tal artifício para saquear um a um daqueles passageiros que usufruíam do transporte fluvial. Assim, que esse misterioso ladino foi abordado e inquirido por Maria, ele se sentiu ameaçado e compelido a sair imediatamente daquele lugar, antes que algo de pior lhe ocorresse. No dia seguinte, Jammes evitou perambular pelo convés da barcaça abrigando-se em um esconderijo improvisado, e, assim se manteve ao longo de quatro dias. No entanto, quando a sua compulsão em roubar apitou estrondosamente em sua mente, ele sai desesperadamente daquele fétido cubículo, porém, as duas crianças já o aguardavam para seu desconforto total. Nervoso e fora de si, ele tomou os dois pelos braços, e, caminhando em passos acelerados os carregou em direção ao fundo da barcaça disposto a arremessa-los no rio. Eis que nesse momento, a menina começou a gritar de maneira estridente e incessante por:

- Papai! Papai! Papai! Por favor, não nos bata! Prometemos não fazer mais nenhum tipo de mau criação... – Maria, esperneava e batia os pés enquanto era puxada firmemente pelo braço.

João ao ver aquilo, também começou a imitar a sua irmã. E, logo os três atraíram a atenção de alguns tripulantes que logo se aproximaram para averiguarem o que se passava. Jammes se viu totalmente acuado com vários olhares pousados sobre ele... Isso o deixou atônito e trêmulo. Maria ao perceber o que a sua ação desencadeou naquele homem esguio e estranho, rapidamente simulou uma espécie de perdão, abraçando-o.

Ilustração 04
Jammes Debberus, O Ladino de Face Enigmática.
As pessoas com o tempo dispersaram os olhares dos três. Porém, para Jammes o seu trabalho naquela barcaça havia se encerrado, uma vez que seu rosto tornara-se conhecido. Desolado ele foi para um canto, e lá ficou a esperar até que a embarcação atracasse no próximo cais para descer. João e Maria a partir daquele momento o seguiram por todos os lados, mantendo-se próximos a ele. Por mais que em sua mente lhe ocorresse à possibilidade de assassinar aquelas duas criaturas peçonhentas que arruinaram o seu trabalho de meses, este era um ladino incapaz de matar alguém, a não ser que este último o colocasse em uma situação de extrema tensão.

A alguns dias de viagem da cidade de Craine, Jammes desceu no cais de um grande vilarejo, e, como senão bastasse, João e Maria o acompanharam sem o seu consentimento. Ele entrou em uma estalagem, pediu um quarto, e, do alto na janela frequentemente passava o olhar observando os dois que montaram guarda em frente ao local onde se alojou. Aquilo o deixou bastante agoniado, e tinha que arranjar uma maneira de se desvencilhar deles antes que arruinassem a sua vida.

Durante oito dias Maria e João ficaram próximos a estalagem, mendigando refeições na rua, dormindo ao relento e tentando observar o seu alvo, sem perder o foco. Contudo, no término do último dia, quando o dono do local foi abordado por Maria em prantos avisando que aquele homem era o pai desnaturado deles que durante muito tempo estava fugido de casa, o senhorio da hospedaria comovido falou que aquele viajante havia pago por dois dias, mas que, no final do primeiro já havia partido sem deixar rastros, Maria ficou pasma e desnorteada com aquela informação.

Hilda Noir, uma belíssima mulher que estava de passagem naquele vilarejo, e de partida da hospedaria naquele momento não pôde deixar de ouvir a história contada por Maria para o Senhorio do lugar, e, sobretudo, como a pequena havia ficado assombrada com a notícia de que o pai mais uma vez tinha abandonado a eles. Ela esperou ficar a sós com os dois para oferecer uma oportunidade de vida:

- Jovem, desculpe minha intromissão – retirando um lenço da bolsa e enxugando as lágrimas da face de Maria -, mas não pude deixar de ouvir a triste história de sua família. Confesso que em muito me tocou, pois, também se assemelha a minha própria que ainda muito cedo também me tornará órfã. Vejo que você e o seu irmão não parecem ter muita coisa além das vestimentas em frangalhos que trajam, sendo assim, gostaria de lhes pagar uma refeição e aproveitar o momento para conversarmos sobre a possibilidade de mudarem de vida.

Embora Maria se sentisse receosa em aceitar o convite de Hilda, ela estava com muita fome, e, ficou ainda mais compelida em fazê-lo pela vida de João. À medida que os dois irmãos se alimentavam, A distinta senhorita aproveitava para contar lhes a história de sua vida, algo tão comovente, agourento e maldito como os dias deles em Donlis, o que fez com que a menina desse crédito para aquela mulher de olhar penetrante e beleza intrigante, ao ponto de se dispor aceitar qual fosse a oportunidade que a mesma tinha a lhes oferecer.

A proposta de Hilda era que Maria se tornasse uma de suas damas em sua morada na cidade de Craine, e o seu irmão enquanto não tivesse idade suficiente para exercer alguma atividade no lugar, ficasse juntamente com as demais crianças filhos de servos do seu lorde. A proposta agradou a Maria, que estava convicta de que aquela mulher tinha o melhor a lhes oferecer.

Quando a carruagem de Hilda Noir correu as ruas em direção à saída do vilarejo, Maria ainda aproveitou para dar uma rápida observada na cidade a fim de avistar o estranho homem que os tinha colocado naquela situação. No entanto, o seu desejo não foi correspondido, e, o seu agradecimento se deu em silêncio, seja lá quem ele fosse.


Dias e Noites sob as Graças de Noir

Ilustração 05
A belíssima Cortesã, Hilda Noir,
 Senhora do Palacete das Orquídeas de Noir.
Em Craine, Maria tomou conhecimento de que ela era mais uma dentre muitas outras jovens garotas que serviam a cortesã Hilda Noir e ao seu consorte, o Marquês Paul Zimmerman. Um grupo formado por cerca de quarenta mulheres que serviam aos interesses lascivos do casal, cujo trabalho delas era propiciar prazer sexual das mais variadas e inimagináveis formas aos convidados da corte. Mais uma vez Maria se viu ludibriada por mentiras e emboscada, pois, nesse contexto, João lhe foi retirado dos seus cuidados e feito refém.

Com o tempo, Maria ficou sabendo que as crianças eram mantidas em um casarão distante da cidade, de propriedade do marquês, e que lá eram aproveitadas para os afazeres domésticos em regime escravocrata. Havia rumores de que as crianças que não se adaptavam a nova vida eram comercializadas. As meninas bonitas e de agrado de Hilda eram trazidas para servirem no palacete, enquanto que os meninos mais leais eram libertos e contratados para servirem a tropa pessoal do marquês, quando não seguiam seu próprio caminho.

Maria tinha receio de que João viesse a saber no que ela havia se tornado, ou ainda, que o mesmo fosse trago para trabalhar naquele lugar – O Palacete das Orquídeas de Noir. Ela não se conformava com aquele tipo de vida, mas não podia demonstrar desagrado, sobretudo, diante de algum convidado, pois, os piores castigos aplicados por Hilda eram voltados contra o seu irmão.

A maioria das meninas que trabalhavam no palacete estava ali em situação semelhante à de Maria. Jovens que foram arrebatadas abruptamente de seus lares ainda muito novas, compradas como escravas para garantir a renda de familiares necessitados, desalmados ou desafetos; meninas que foram seduzidas por estórias de sofrimento e que se transformaram em algo infinitamente melhor; e, jovens que tiveram seus bebes retirados de seus braços e conduzidos a seguir um caminho distante, mas sob a promessa de que o seu esforço entre as quatro paredes do Palacete estaria a garantir a prosperidades de seus amados rebentos. Dependendo do comportamento e da renda propiciada ao longo de um período ao Palacete, os senhorios permitiam as suas servas um dia de reencontro com os familiares próximos, sobretudo, as crianças, contudo, sempre na companhia de um guarda do marquês.

Para não serem abatidas pela depressão, stress e outros infortúnios decorrentes da alma fragilizada, Hilda distribuía entre as suas servas uma poderosa droga alucinógena chamada de Acalanto de Morfeu. E, está foi uma solução adotada por Maria para calar a dor que rompia em seu peito. Pois,ao contrário das crianças da Igreja de São Clementino da Luz, suas novas companheiras não se sentiam tão abatidas por ali estarem condicionadas a escravidão sexual ao ponto de se rebelarem e fugirem, uma vez que, muitas delas antes daquele lugar estavam em situação bem mais precária. O fato é que, muitas delas encontraram no Palacete das Orquídeas de Noir todo o conforto e segurança que talvez nunca sequer almejassem em sonho.


Promessa de Morte

João de Deus tinha um dom empático com os animais surpreendente que o tornou querido entre os seus companheiros, e, todavia, invejado por outros, dentre esses estava Luzmmonarca, um dos filhos bastardos do Marquês Zimmerman e um dos responsáveis pela ordem entre os vassalos que viviam na propriedade.

Ilustração 06
Luzmmonarca, o Algoz de João de Deus
 na fazenda do Marquês Zimmerman,
 além de um filho bastardo deste último.
Luzmmonarca se aproveitava da hiperatividade de João para castigá-lo, e quando o mesmo não dava motivos para tais condenações, o seu carrasco criava situações para fazê-lo. Geralmente, ele o açoitava o torturando psicologicamente com maledicências do tipo:

- Quem pensa que és João do Diabo?!?! Aqui és somente mais um filho desgarrado de uma das rameiras que trabalham e vivem no Palacete Luxurioso de Madame Hilda, prostituindo-se, bebendo e comento do bom e do melhor, enquanto você e todos os outros estão aqui para assegurar a mordomia de mulheres que vivem em pecado e que não percebem o martírio diário para aqueles que estão do outro lado destes muros tenebrosos, distantes, e solitários! Seu verme miserável, aqui sou aquele que lhe permitirá a vida, portanto, respeita-me com o louvor de um servo fiel!

João não entendia algumas das palavras proferidas pelo seu malfeitor, assim como também o motivo de sua revolta para com ele, mas o que mais lhe feria não era a dor produzida pelos açoites incessantes de Luzmmonarca, porém, a distância imposta entre ele e a sua irmã, Maria, cujo desconhecia o paradeiro, senão por aquilo pronunciado pelo seu algoz.

Passado cerca de um ano após a sua chegada a fazenda, João de Deus e um grupo de crianças selecionadas por uma mulher desconhecida foram conduzidos para fora da propriedade onde eram mantidos cativos por meio de algumas carroças em direção a um suntuoso palacete recolhido as margens de uma grande cidade do reino – Craine. Quando lá chegaram, eles foram deixados livres em um pátio interno, obscuro, ricamente adornado com estátuas de mulheres nuas, plantas exóticas, grama verdejante, e, vigiados por pavorosas criaturas que se assemelhavam a homens, mas não eram completamente humanos, por terem como características: cascos nos pés, calda, chifres sobre a testa, focinho e um olhar penetrante.

Quando as crianças ouviram um peculiar ranger de portas, oriundo de um dos lados do pátio, e delas surgirem mulheres pelas quais aguardavam revê-las ansiosamente por infindáveis dias, logo, os pequeninos correram desesperadamente em direção das jovens como se as suas vidas dependessem daquele encontro. João de Deus, quase não reconheceu Maria, pois, suas feições, a silhueta de seu corpo e o seu olhar eram outros – algo havia mudado em sua irmã -, contudo, o olhar e o sorriso da jovem ganharam a forma típica da lembrança quando ela o viu, acolhendo-o em seus braços em um afago longo e choroso.

Daquele dia e das palavras pronunciadas por Maria carregadas de emoção, João de Deus lembrava-se claramente da promessa feita por ela olhando dentro de seus olhos, com os mesmo repletos de lágrima:

- Ainda não sei como nos tirar deste lugar, e longe das garras dessas pessoas, mas prometo que tenho buscado todos os meios possíveis para nos ver livre disso, e voltarmos a ser uma família novamente.

Com um forte abraço, aquele momento e aquelas palavras foram encerradas em um silêncio que perduraria por tempo inimaginável. João de Deus era muito jovem para compreender todas as dificuldades que os envolviam, mas de algo tinha certeza: que gostaria muito de estar ao lado de Maria.

Na fazenda do Marquês Zimmerman, João cresceu sobre um clima que alternava constantemente entre estima, indiferença, respeito, inveja, preconceito, hostilidade, tranquilidade, violência, e batalhas diretas.

Transcorrido cerca de dois anos após o encontro com Maria no distante Palacete na Cidade de Craine, Luzmmonarca, em uma posição destacável, chamou a sua presença João, para encher seus ouvidos com uma infausta mentira que mudaria para sempre a sua vida dentro daqueles muros:

- Morreu já faz uns três dias a sua benfeitora, João, e, acredite, não foi algo tão agradável de se presenciar, pois, ela já agonizava há semanas sob o um leito afastado das demais rameiras, de modo que não contagiasse para as demais companheiras... Dizem que Ela havia sido contaminada por uma doença que somente as mulheres de sua laia poderiam proliferar, alguma coisa que se devia ao fato delas abrirem as pernas para tudo quanto é tipo de criatura que tenha um falo.

Pasmo, João desacreditava insistentemente naquela noticia balançando a cabeça em sentido de negação. Ele estava incrédulo quanto aquelas palavras vindas de seu algoz. Contudo, a farsa também era sustentada por alguns outros que ali estavam, e, Luzmmonarca para reforçar ainda mais aquele estado de choque em sua vitima, empurrou um baú com os pés para próximo de João.

- Aqui estão alguns pertences pessoais dela, cujas companheiras recolheram e guardaram para lhe entregar. Dúvido, verme, que algo lhe sirva, mas se quiser fazer uso, saiba que aqui na fazenda outros entenderam.

João de Deus saiu daquele cubículo em prantos e com o baú de Maria abraçado contra o peito. Ele tinha certeza de que aquele item pertencia a ela, pois, o cheiro que ele exalava lembrava o perfume que ela possuía em seu último encontro, algo que remetia o pensamento a uma delicada flor existente no jardim da marquesa.

Esse tipo de mentira era algo que o Marquês Zimmerman tinha como prática para garantir que os seus vassalos mais jovens não desviassem a atenção do trabalho dentro de suas propriedades feudais, ou ainda, que se aventurassem desnecessariamente por caminhos obscuros e mortais que compreendia a derradeira verdade. E, o que geralmente acontecia com sucesso entre as crianças, ainda que por meio de um estado catatônico de conformidade a aflorar na adolescência.

Deste dia em diante João de Deus mudou. Passou a almejar mais do que tudo a paz e a liberdade pela qual Maria tanto buscou para os dois. E para isso, ele evitaria cometer qualquer falha que pusesse a sua vida em risco, porém, esforçar-se-ia ao máximo para abandonar aquela vida de amargas migalhas e dissabores para sempre.


Despedida de um Inferno

No término de sua adolescência, João conheceu ainda na fazenda do marquês um homem chamado Heitor Ulbier, este além de um exímio fornecedor e tratador de animais, tinha também um dom para reconhecer talentos natos, algo do qual ele falou as escondido no pé de seu ouvido. O caçador de animais costumava se dirigir a fazenda em um intervalo de quatro à seis meses para negociar as melhores montarias que dispunha com o milorde Zimmerman. De certa forma, aquele apreço oriundo daquele homem nutriu algum tipo de esperança no âmago de João de Deus.

Ilustração 07
Heitor Ulbier, O Caçador de Animais que
 libertou João de Deus dos muros de Zimmerman
 e o introduziu em uma vida de aventuras.
Ulbeir trabalhava com uma equipe de homens e semi-humanos que o acompanhavam em suas arriscadas aventuras. E, sempre que o Caçador de Animais estava na fazenda, João tratava de se aproximar para ver o que ele trazia de novo em sua bagagem, além da oportunidade de ouvir seus impressionantes relatos.

Luzmmonarca e Heitor Ulbier não se gostavam. De fato, o primeiro não gostava de ninguém, e, era mal reputado entre os empregados da fazenda de Zimmerman, por inúmeros crimes, sobretudo, abuso de violência, maus tratos, estupros e mortes. O algoz de João tratava o caçador como um fanfarrão, dissimulado, mentiroso e caloteiro, ainda que no fundo nutrisse por ele um desmedido sentimento de inveja. Embora houvesse esse desafeto, quem estava acima daquela rincha pessoal entre os dois se colocava a favor de Ulbier, que era o próprio Marquês, que embora conhecesse bem o mercador e a fama que o precedia, nunca viveu com ele nenhum atrito que o desabonasse.

A afinidade de Ulbier com João de Deus tomou tamanha proporção que o caçador em certa negociação com o marquês propôs a troca de alguns animais pela vida do jovem, Como milorde Zimmerman nunca foi alguém apegado a pessoas, exceto a sua amante Hilda Noir, não hesitou em aceitar o trato. Essa negociação aparentemente pacifica entre as partes tomou uma proporção dantesca ao chegar aos ouvidos do bastardo que conhecia o faro apurado de seu inimigo e também a habilidade de João, que era naquele lugar o mais habilidoso no tratamento dos animais. Sendo assim, Luzmmonarca tinha que tomar uma atitude antes que o dia amanhecesse e eles pudessem partir.

Naquele mesmo dia já pela madrugada, Luzmmonarca foi juntamente com mais dois dos seus comparsas até o cômodo onde ficavam alojados os homens da fazenda para sequestrar João de Deus. E, assim eles o fizeram, arrancando o jovem a força da cama a qual descansava, prendendo firmemente os seus braços e amordaçando a sua boca. João ficou sem entender o que se passava por algum tempo, enquanto ele era arrastado pelos braços, até que se deu conta de que aquele gesto violento de seus agressores estivesse vinculado a conversa que ele havia tido horas atrás no cair da noite com Ulbier, que na ocasião o questionou:

- Você está preparado para viver como um desbravador de aventuras, filhote?

E João de Deus bem se lembrava de que maneou a cabeça em afirmação a pergunta, consentindo com o desejo de ser aquilo que Ulbier pressentia ser o seu futuro longe daqueles muros. O Jovem com um sorriso trêmulo, em função do sentimento ambíguo de felicidade e temor ao horizonte de possibilidades que lhe afrontavam o pensamento lógico.

João sentiu quando o seu corpo foi arremessado sobre o lombo de um cavalo de qualquer jeito, e, antes que o cavaleiro pudesse montá-lo para partir em fuga, o pequeno grupo de sequestradores foi abordado por um outro bando de desconhecidos, que na penumbra da noite se limitavam a sombras e vozes abafadas por capuzes, cujo o que se falava não era muito bem compreendido. Não tardou para que um combate entre os captores de João e o outro grupo inicia-se, de maneira rápida e mortal.

Quando João de Deus se deu conta, sendo desvencilhado das cordas e mordaças que o prendiam por mãos alheias as suas, ele percebeu que o outro grupo que havia intervido a ação de Luzmmonarca não eram desconhecidos, e sim, eram parte dos homens que seguiam Ulbier em suas empreitadas. E, ali mesmo ficou sabendo de que aquela fatalidade somente aconteceria se o seu captor hesitasse lhe entregar, não por vontade de Ulbier, mas do próprio Marquês. João de Deus olhou para o que havia sobrado de seu algoz jazido no chão sem vida, e, se espantou com a profundidade dos cortes, que por muito pouco não o decapitaram.

Os restos de Luzmmonarca e de seus comparsas foram arremessados em um uma profunda trincheira encoberta por água próxima aos muros da propriedade do Marquês, que era conhecido por estar infestada de piranhas mortíferas e insaciáveis.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Diabruras em Culto a Dionísio - Introdução

A Profanação do Sagrado



Ilustração por James Wolf Strehle.
O Templo Sagrado de Dionísio no
Baronato de Lacquoa (Cardial), e que
dias antes da tradicional festa em
homenagem a divindade fora profanado.
Por volta do ano de 2033 um fato extraordinário e de mau agouro aconteceu no feudo do Barão Mariuns Lacquoa, algo que surpreendeu a todos os habitantes que povoavam a região conhecida como as Serras Helênicas que margeiam o Lago Alfir: O Baronato de Lacquoa estava às vésperas de celebrar mais uma Dionísa - festa anual em homenagem a Dionísio, uma das divindades patronas do lugar -, quando pelo início da manhã antes dos asseclas do Deus retomarem os trabalhos de preparação dos locais onde os sagrados ritos ocorreriam, eles se depararam com as oito sacerdotisas correndo completamente despidas pelas ruas, becos, vielas, pastos, jardins e escadarias da região. O que causou mais alvoroço e temor entre a população foi o fato de tomarem conhecimento de que as virgens consagradas à divindade – ainda no início de seu afloramento -, haviam sido molestadas dentro do Templo Sagrado, e, como senão bastassem, elas estavam sob o efeito de algum encantamento, pois, cantarolavam canções desarmônicas, gargalhavam histericamente, gemiam como se estivessem em êxtase pleno, e quando apanhadas para serem indagadas do ocorrido ficavam emudecidas e com o olhar perdido. Ao averiguarem o Templo Sagrado de Dionísio os devotos perceberam algo ainda mais aterrador ao perscrutarem o local em busca de vestígios que pudessem denunciar os autores daquele infortúnio: A Libido de Ninfa - um dos principais componentes usado na preparação da sagrada bebida deste festejo, a Hermadiônica -, foi usurpada do santuário durante a invasão.


Ilustração por Miguel Coimbra.
Barão Mariuns Lacquoa do baronato
de Lacquoa no reino de Cardiel,
principal interessado na resolução
do crime cometido contra a divindade,
pois, teme pela vida de todos cidadãos
da região, inclusive a sua própria.
A população do Baronato de Lacquoa ficou estremecida com todos esses acontecimentos, pois, acreditavam que quando a divindade chegasse ao local e tomasse ciência do que havia ocorrido às suas sacerdotisas, e, sobretudo, de que não haveria Hermadiônica para ser servida em libação a Ele e a seus convidados, uma maldição poderia ser lançada sobre o povo de Lacquoa, ou mesmo, a perda da benção de seu patronato.

O Barão Mariuns Lacquoa quando soube do ocorrido associou o crime aos cristãos do Ducado de Hadaton, sobretudo, ao Duque Anthemius Crivelli e ao Arcebispo John Menelau. Para tanto, ordenou imediatamente a população que identificassem todos os estrangeiros e os entregassem as autoridades para investigação, principalmente, os cristãos e os desafetos da deidade. Quanto a essa ordem do Barão, a população rapidamente se mobilizou, e antes do término do dia, entregaram um grupo de 20 integrantes, dentre eles, 15 Humanos e 5 Não Humanos, as mãos de Sir Ominis Azzira – Primeiro Cavaleiro do Baronato de Lacquoa.

Sir Ominis interrogou os estrangeiros, contudo, todos alegaram desconhecer o ocorrido e serem inocentes quanto ao crime do qual eram acusados. Insatisfeito com o resultado, Ele os manteve encarcerados até a segunda ordem para que repensassem seus feitos e colaborassem com as investigações, ou do contrário, pela manhã seriam conduzidos até a Alcova de Andrômeda – Uma cela encrustada nos rochedos situados do outro lado das montanhas a beira-mar, onde geralmente os condenados morrem afogados com a enchente da maré, ou devorados pelas traiçoeiras serpentes marinhas.

Uma delegação sagrada a um Deus da Exceção.


Ilustração por Paul Abrams.
Sir Ominis Azzira, o Primeiro Cavaleiro
do Baronato de Lacquoa, encarregado
pelo Barão Mariuns de conduzir a
missão junto com os suspeitos pela
profanação ao santuário da divindade.
Antes do raiar do dia o Barão Mariuns e Sir Ominis estavam diante dos prisioneiros, acompanhados de uma comitiva que esteve de prontidão ao longo da noite de forma que os cativos não tentassem fugir. Na ocasião, eles propuseram ao grupo que escolhessem dentre eles cinco que poderiam lhes representar em uma “missão de redenção”, enquanto que os demais seriam conduzidos para a Alcova de Andrômeda. Os prisioneiros ficaram agitados, pois muitos que ali estavam não se conheciam ao ponto de entregar as suas vidas nas mãos de estranhos. Contudo, dentre eles já havia um grupo formado de aventureiros com cinco membros que se denominavam Os Cymamiras. Independente disso, esse mesmo grupo teve que ser desfeito parcialmente, pois, mais gente tinha interesse em sair dali e lutar pela sua vida (e daqueles que ainda ficariam encarcerados) até a concretização da missão.

Em um local mais reservado, o Barão Mariuns acompanhado somente de Sir Ominis falou aos cinco:

“O que estamos a viver aqui é uma situação muito delicada, senhores, e, infelizmente, a população de Lacquoa esta bastante abalada com os últimos eventos ao ponto de termos registrado três suicídios somente no dia de ontem. A maioria já se indispõe contra mim por tê-los mantidos encarcerados em vez de tê-los sacrificados em honra ao Deus, ou mesmo fazer o que deveria ser feito, que era coloca-los em missão. No entanto, não queria ser precipitado em meu julgo e faltar com bom senso. Preciso que juntamente com Sir Ominis Azzira - alguém da minha mais alta confiança -, e o ex-sacerdote do Templo de Dionísio, Meneféis, cumpram até o anoitecer do próximo dia as tarefas que lhes serão informadas para assim apaziguarmos os ânimos dos cidadãos de Lacquoa – Isto é o máximo de tempo que posso conseguir junto as lideranças populares antes que estoure uma rebelião. A propósito, sou um homem que cumpro a minha palavra, e, sendo assim, além de libertar vocês e os seus amigos, também os agraciarei com uma boa recompensa.”

Após as palavras do Barão que teve de se retirar para fazer um discurso em praça publica para a população, o cavaleiro Ominis entregou aos cinco escolhidos os seus pertences pessoais necessários à realização das tarefas que integravam a missão como um todo, e explanou detalhadamente a eles em que as mesmas consistiriam:


Primeira Missão: Busca por uma ovelha desgarrada.

“Uma das peças fundamentais para o êxito da missão consiste em encontrarmos e convencer o afastado sacerdote Meneféis em nos ajudar. Bom, ele era o único homem que podia adentrar o Templo de Dionísio e realizar os rituais, além das sacerdotisas – cujas quais acreditamos que Ele também se aproveitava após os cortejos divinais -, contudo, a cerca de dois anos, o intrépido Deus o amaldiçoou com uma forma feminizada durante uma Dionísa, e, como senão bastasse o humilhante fardo, a divindade tentou possuí-lo... Meneféis. o negou e se refugiou no alto de uma das montanhas que nos cerca, e lá vive solitariamente pastoreando merinos negros desde então.”


Segunda Missão: Mais a Libido de Ninfa para a confecção de Hermadiônica.

“Deveremos buscar por mais a Libido de Ninfa no Bosque de Telon que fica do outro lado do Lago Alfir. Contudo, para fazê-lo levaremos oferendas a Deusa Artêmis, A Caçadora. Embora ela seja uma figura arredia e desafeta das celebrações em homenagem a seu irmão, com as palavras e os presentes certos ela nos fornecerá aquilo que necessitamos. A propósito, dentre nós, somente os mais belos adentraram o bosque, pois as ninfas costumam se sentirem ofendidas com a presença de seres desprovidos de beleza, o que faz com que elas fiquem agitadas e se indisponham contra nós – e isso pode ser uma fatalidade.”


Terceira Missão: Capturar o responsável pela Profanação.


“Teremos que trazer nessa bandeja de prata impecavelmente ornamentada a cabeça do profanador, cujo como segunda opção, nós acreditamos ser Olerário - um sátiro que habita as marginais do Bosque de Telon -, pois, no ano passado o mesmo havia prometido se vingar de Dionísio por ter cortejado uma de suas amantes, Cibellis, a Centaura.”

domingo, 13 de maio de 2012

Cintilar de Devaneios - Digladiar sabores vitais legítimos


Ilustração Gladiator vs Lion por Miguel Coimbra.
Mais uma vez em uma briga.
Em uma das últimas boas brigas que terei.
Viva e morra neste dia.
Viva e morra neste dia!

- John Ottway, The Grey.
O instinto se perfaz em violência sanguinária, nem mais e nem menos, somente sobrevivência! Cala-te perante O Chamado do Confronto e se verá um derrotado, portanto, aceita tua condição de Predador Alfa e parta em busca daquilo que lhe conforta, mesmo que um dilúvio de sangue tenha que romper de seus punhos.

O elixir da vida se faz das batalhas aceitas;
Dos desafios enfrentados;
Das lições aprendidas; e,
Por quantas vezes se ergueu diante da presumida derrota derradeira.
 

Diante de seu inimigo perceba no olhar - se nele lhe for permitido mergulhar ainda que em uma fagulha de tempo imensurável -, e vislumbre a sua profundidade. Uma vez possível esse gesto, a alma de seu opositor se desdobrará perante ti de maneira expansiva revelando-lhe aquilo que lhe for necessário para confrontá-lo, inclusive os medos. Pois, quem se dispõe a um confronto teme, ainda que relutantemente.

O elixir da vida se degusta ao longo da batalha;
A superação dos desafios;
A disseminação da lição; e,
Por quantas vezes lançou ao chão pré-conceitos ditos inabaláveis.

Faça-se opulento de virtudes. Que em teu sangue flua enfurecidamente força de vontade, coragem e determinação para que aquilo que defrontá-lo compreenda que este a quem confronta não é somente mais um necessário desafio a ser vencido, mas um Impávido Colosso. Respeito e Temor devem andar lado a lado, e assim também sentidos, para que a presunção não seja o primeiro golpe a nocauteá-lo.

O elixir da vida é teu, toma-o.
Ao custo dos confrontos que lhe forem necessários,
Pois no fim, o paladar será determinado pela dignidade de teus feitos.
Amarga são as derrotas, mas qual verdadeiro campeão nunca experimentou delas para não mais saboreá-las?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Fragmentos de Ytarria - Mortífera Loucura na Floresta Negra

Uma das mais aterradoras fracassadas incursões à Floresta Negra


No início da primavera do ano de 1987, o Rei Diofrates XII constituiu a Sétima Legião Megalana, alcunhada de Dragões Desbravadores. A frente desta companhia o suserano dispôs o segundo filho do Duque de Hildelban, Sir Colluns Deminarus, e a ele designou na qualidade de Cavaleiro Dragão a missão de desbravar um território inóspito e cercado de mistérios dentro das fronteiras do Império, a Floresta Negra.

Ilustração 01: Colluns Deminarus de Hildelban, Primeiro Cavaleiro Dragão a frente da Sétima Legião Megalana “Os Dragões Desbravadores”.



Apesar de todos os agourentos rumores que permeavam está região do Império, Colluns Deminarus não se deixou abalar pelos mesmos, pelo contrário, tomou a estes como insultos as suas virtudes de cavaleiro imperial, e também, como um desafio a altura do nome de sua família. Diante de seu suserano, dos arcebispos, de seu pai - o Duque Aphonse Rohad de Hildelban -, e demais membros da cúpula aristocrática de Mégalos, ele foi honrado com a liderança da Sétima Legião do Império e todos os fardos dignos a nobreza de seu título. Uma vez abençoada a missão pela Santa Igreja e havendo o consentimento do Rei Diofrates XII, a Legião partiu da capital do reino até a grande vila fortificada de Hyrnan.

Os Dragões Desbravadores eram uma das legiões de porte mediano, composta oficialmente por cerca de três mil componentes, dentre os quais se destacavam em sua hierarquia:

Coorte:
Primeiro Cavaleiro Dragão (General da Legião): Colluns Deminarus de Hildelban
Segundo Cavaleiro Dragão (Valete): Theran Itellus de Mégalos
Primeiro Conselheiro (Clérigo - Portador da Divina Luz): Bispo Olaff Hominus
Segundo Conselheiro (Mago – Escolástico dos Caminhos Imersos): Cilenox Amarantis de Azer

Cavaleiros: 20
Infantaria Pesada: 1.180
Infantaria Montada: 120
Mercenários: 500

Arcanos: 100
Assistentes diversos: 380
Escravos: 700

Animais Treinados:
Cavalos: 200
Cães: 300

Carroções: 20

Obs.: Os semi-humanos eram um contingente que representava cerca de trinta por cento da Legião. Muitos deles eram escravos, oriundos de prisões de guerra e criminosos. Quanto às raças, a grande maioria era Orcs, Meio Orcs, Goblins, Kobolds, Reptantes, e, alguns poucos, Meio Elfos e Anões.

Ilustração 02: Floresta Negra.

Ao cruzarem o Ducado de Yibyorak a Sétima Legião percorreu por cerca de seis dias o litoral que margeia a belíssima Baía da Fechadura, avistando ao término do último dia - e a frente -, a imponente Floresta Negra, algo que trouxe dentre a companhia um previsível tumultuo que tão logo foi contido. Contudo, Sir Colluns Deminarus e sua tropa deveriam marchar ainda por mais nove dias a oeste em direção ao baronato de Hyrnan. Ao longo deste percurso até a vila de muralhas fortificada, foram detectadas as fugas ou desaparecimentos de alguns escravos, a deserção de uns poucos mercenários, e, também, a morte de alguns animais. Houve conflitos motivados por ânimos exaltados e interesses supérfluos, algo que entre o grupo foi denominado como o mal do “Olhar do Abismo” – Algo causado pelo simples fato de fitar a Floresta. Logicamente, Colluns e seus Cavaleiros mais céticos tomaram aquilo como uma fantasia descabida, e puniram com rigor aqueles que afrontassem a ordem semeando tal infausto boato.

Ilustração 03: Hyrnan, a grande vila fortificada junto a Baía da Fechadura e a Floresta Negra em Mégalos.
Em Hyrnan – pouco depois do meio dia -, a Legião dos Dragões Desbravadores foi recebida com festividade pelos populares da grande vila portuária. O Barão Tunstall juntamente com uma comitiva de nobres locais recebeu pessoalmente o General e a sua coorte, servindo-lhes um formidável banquete, acompanhado de um vinho de excelente safra, assim como, a companhia de agradáveis cortesãs.

Anoite, durante as festividades o Barão Tunstall aproveitou a oportunidade para exaltar em discurso publicamente o seu contentamento para com a sábia iniciativa do Rei Diofrates XII, que ouviu as suas suplicas, e não tardou, em enviar ao seu desprotegido baronato uma honorável legião megalana, a fim de acrescer ao local a notoriedade que lhe é devida, bem como, as riquezas que a circundam, e que necessitam de mãos hábeis e talentosas para serem tão bem exploradas.

Ilustração 04: Barão Tunstall, Senhor de Hyrnan.
No dia seguinte, logo pela manhã, Sir Colluns Deminarus voltou a se reunir com o Barão Tunstall para dispor todos os principais pontos daquela campanha, e, sobretudo, a natureza do negócio. O Barão ficou horrorizado – no âmago de seu ser, profundamente ultrajado - com as condições impostas pelo imperador que eram de longe saudáveis para o seu baronato, pois, além de fornecer a devida estadia para a Legião, o mesmo somente gozaria de dez por cento da madeira que fosse extraída, uma vez que, a limpeza do terreno abriria caminho para o aumento de alguns feudos, ou mesmo a constituição de novos, e, consequentemente, o investimento naquilo que fosse melhor para a economia local. O Barão e os nobres locais discordavam plenamente dos termos, no entanto, tiveram de acolher aquele “estupro” de suas terras sem queixas.

Após dois dias de planejamento, os Dragões Desbravadores partiram para o campo fazendo um percurso que margeasse o Rio Umbral. No início, tudo correu dentro daquilo que havia sido previamente esquematizado por Sir Colluns e a sua coorte. Na linha de frente seguiram em ordem escravos e mercenários, e logo atrás, os soldados, ambos armados de serras e machados, pisoteando a mata, derrubando as árvores, enquanto os magos destruíam bosques inteiros com fogo mágico.

Ilustração 05: Noite na Floresta Negra.
O Rio Umbral - que poderia servir de meio para o descarregamento das toras de madeiras -, era em sua extensão, desnivelado e repleto de armadilhas naturais, ou seja, tornando inviável a possibilidade de uso das treze barcaças oriundas de Mégalos – e que estavam atracadas no porto a cerca de cinco dias -, portanto, o transporte daquilo que já havia sido derrubado demandou mais tempo e meios, havendo de serem construídas trilhas para a passagem dos carroções.

Em duas semanas aproximadamente, eles avançaram algo equivalente a dois dias de marcha floresta à dentro... E até aquele momento, a Legião não havia encontrado grandes empecilhos, salvo alguns ataques de matilhas de lobos, felinos, ursos e outros seres menores e peçonhentos. Inclusive quanto a estes últimos, destaca-se um mosquito que proliferou uma doença mortal, que os soldados denominaram de “Maldição das Toras”(*). Entretanto, como senão bastasse essa pestilência que açoito mais de quarenta por cento do grupo, algo mudou para pior...

Ilustração 06: Lobo Atroz, Predador Mortífero da Floresta Negra.
A Legião começou a se defrontar com determinados tipos de criaturas das quais pouquíssimos seres haviam visto. Primeiro surgiram os Lobos Atrozes, criaturas corpulentas, ferozes, irascíveis em suas caçadas, e indomáveis. Seus uivos enchiam a noite com um tom capaz de semear medo e pânico nas mentes mais atribuladas, cercando o acampamento, tornando impossível de conciliar o sono. Qualquer homem que se afastasse mesmo uns poucos passos das fogueiras das sentinelas era abocanhado abruptamente e arrastado para o meio das árvores, de onde se ouviam seus gritos agonizantes enquanto era dilacerado vivo. Durante o dia as feras imergiam na escuridão da mata, contudo conforme o terreno ia sendo limpo pelo grupo em sua missão de devastação da Floresta, iam-se encontrando os restos pavorosos das vitimas da noite anterior.

Os Dragões Desbravadores também tiveram de enfrentar bandos de Tardívagos, Moncos, Aranhas Gigantes, uma comunidade de Trolls (com cerca de doze membros), Dragonetes, Plantas Carnívoras e pelo menos três tribos de Hobgoblins. Contudo, os sobreviventes acreditam que outras criaturas ainda mais aterradoras foram encontradas, mas que não foram possíveis serem confirmadas em função destes encontros não terem havidos sobreviventes para relatar.

Com o discorrer dos dias, os suprimentos foram se limitando, e, a situação se tornou ainda mais insustentável quando a caça que antes era consideravelmente farta, agora havia se tornada escassa. Algo estava afugentando os animais para longe dos acampamentos dos soldados. A água do Rio Umbral também se tornou imprópria para consumo, pois exalava um odor forte, fétido e insuportável de morte, além da coloração turva; essa mesma água imunda parecia estar provocando a morte de muitas plantas que poderiam ser utilizadas na alimentação. Sir Colluns considerou sensato o envio de um destacamento composto por vinte homens de volta a vila portuária de Hyrnan, em busca de mais uma leva de no mínimo cem homens e provisões (a serem fornecidos de bom grado pelo Barão e os nobres locais), mas na manhã seguinte a partida, os corpos brutalmente dilacerados destes enviados foram encontrados próximos ao limite do acampamento. A coorte discutia se em função dessa trágica ocorrência deveriam mandar um destacamento maior? Mas, quão maior? Metade da Legião sobrevivente? Não se chegava a um consenso.

Em pouco mais de um mês, a Legião inicialmente composta por aproximadamente três mil componentes havia sido rechaçada para pouco mais de duzentos homens. A doença havia se alastrado no acampamento juntamente com a podridão dos corpos putrefatos que emanava pelo ar. A falta de sono, comida e água fizeram com que muitos padecessem diante da morte certa, exauridos de suas forças vitais. Os sobreviventes se mantinham assim alimentando-se de seus saudáveis companheiros cujos desaparecimentos eram atribuídos ás criaturas da Floresta. Não tardou para que a nefasta prática de canibalismo entre a Legião viesse à tona, colocando cada um dos homens em prontidão total.

O próprio Sir Colluns Deminarus havia se servido de um banquete juntamente com a sua coorte onde o prato principal eram partes de seu escudeiro. Eles bebericavam sangue em suas taças - outrora inundadas de vinho -, e debatiam insanamente medidas para confrontar os males que assolavam o acampamento. Ao término do dia, a coorte percorria o grupo para apontar aquele que poderia ser chacinado e banqueteado entre os seus, além de gratificar diariamente com uma quantia superior os sobreviventes.

Os homens se matavam para se alimentar e obter espólios, mesmo que a esperança de gastar tais recompensas jamais ultrapassasse o perímetro daquele amaldiçoado acampamento. O receio de conseguir dormir e não acordar mais era tamanho que muitos passavam dias acordados até que a extrema fadiga os levava ao inconsciente. Um homem crer que poderia se tornar o almoço do seu companheiro de barraca era algo tão abominável, que ele buscava refugio em um local mais a esmo, e, nesse vacilante momento a Floresta o atacava. Ouviam-se vozes, oriundas das árvores, que convidavam os soldados a deitarem-se à sua sombra refrescante. Aqueles que atendiam a esse mórbido chamado nunca mais eram vistos.

No raiar do dia um grupo de sobreviventes (com pouco mais de quarenta homens), e liderados por um Cavaleiro Dragão chamado Ethos Meneguelli de Mehan partiram levando consigo o General, amordaçado e desacordado. Um silêncio lúgubre desceu sobre a Floresta enquanto os soldados percorriam o seu caminho de volta, deixando para trás tudo aquilo que pudesse tornar essa passagem morosa e perigosa... Desprovidos de fortunas, armaduras, consciência e sanidade.

Ilustração 07: Ethos Meneguelli de Mehan, Cavaleiro Dragão da Sétima Legião Megalana “Os Dragões Desbravadores”.





Colluns Deminarus de Hildelban seria entregue por Ethos Meneguelli de Mehan nas mãos do Imperador para a sua condenação de morte visto o fracasso da missão e a dizimação quase total da Sétima Legião, contudo, isso não ocorreu, pois, antes que o ex-general pudesse ser devidamente tratado e enviado a capital, o mesmo não suportou a humilhação e clamou ao seu oficial subordinado que o matasse. Apesar de todos os infortúnios vividos em função da arrogância, orgulho e os caprichos do Primeiro Cavaleiro, Ethos não o fez. Porém, libertou Deminarus de suas amarras e o ordenou que retomasse a sua missão entregando-lhe um machado.

Ethos e os demais sobreviventes observaram ao longe uma legião de malignos espíritos e mortos-vivos se amontoarem em meio às árvores que ainda se mantinham de pé – encobertos por sombras e proferindo gritos esganiçados -, enquanto que Colluns Deminarus seguiu em passos firmes em direção a Floresta Negra. O Primeiro Cavaleiro Dragão nunca mais foi visto. Alguns dos soldados sobreviventes ficaram loucos ou permaneceram em silencio, estáticos, de olhar perdido no infinito.

Ethos Menegueli de Mehan após a sua recuperação na vila de Hyrnan, entregou a sua espada ao Barão Tunstall, juntamente com uma carta direcionada ao Rei Diofrates XII relatando o ocorrido a Sétima Legião Megalana, e, sobretudo, os perigos infaustos que habitavam a Floresta Negra. Antes de partir a esmo por caminhos desconhecidos, o ex-cavaleiro disse ao pé do ouvido do nobre:

“Enquanto estive lá, mais de um sussurrou o teu nome. Não tardará para que Eles venham reivindicar a tua vida, Barão.”

Somente cinco das treze barcaças enviadas pelo Império foram abastecidas com madeiras oriundas da floresta, contudo, destas que partiram de Hyrnan, apenas três chegaram ao seu destino - o porto de Azer na Ilha de Dyescastle -, pois, as outras duas afundaram em função de sobrepeso e de tempestades enfrentadas nas proximidades do litoral do Baronato de Min. Ainda sim, os construtores navais de Azer que recepcionaram a carga condenaram a madeira para os fins solicitados pelo Império (produção de mais navios de guerra), comunicando que aquela matéria-prima não serviria nem mesmo como lenha para fogueira, pois exalava um odor pútrido e insuportável quando queimada. O Barão Tunstall vivenciou em seu Baronato desastres pela utilização da madeira extraída da floresta tais como: embarcações ruins e que naufragaram; casas, torres e pontes que ruíram em pouco tempo; e, por fim, homens que morreram asfixiados em suas casas enquanto dormiam em noites frias tentando se aquecer próximos a uma convidativa e aconchegante lareira...

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(*) A Maldição das Toras era uma doença transmitida por um mosquito que se movia aos bandos ao longo do dia, e, durante a noite, agia solitariamente sobre suas vitimas. A doença costumava se manifestar cerca de dois dias após a picada do mosquito (que não era visível e dificilmente causava irritação), e tinha como sintomas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas, falta de apetite e vômitos durante três dias; contudo, passado esse período, o corpo da vitima apresentava sinais de melhoras, e após um breve período de bem-estar (até dois dias), os sintomas retornavam de forma mais agravados: os olhos estufavam encobertos em sangue pelos vasos sanguíneos rompidos, a pele em tom amarelado com manchas roxeadas, ocorrências de hemorragias, espasmos musculares, e, por fim, o último estágio consistia em um cansaço intenso seguido de um coma profundo até a morte. Após a picada pelo mosquito, o individuo leva cerca de uma semana para padecer.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Era dos Papergames


Um jogo que marcou época, por possibilitar a muitos desenvolverem talentos artísticos, percepção, e um apurado senso criativo, além, de propiciar entretenimento para garotada.

A Origem

Antes do acesso aos videogames, e, sobretudo, aos minigames, houve um tempo de entretenimento entre as crianças e adolescentes da região ao qual morava/estudava dominado pelos “Papergames”.

O termo Papergames tem origem desconhecida, mas salvo engano, um professor tenha sido responsável por alcunha tão original. Pois, na maioria das vezes a diversão com esse tipo de jogo ocorria em sala de aula ou no intervalo recreativo.

Geralmente o Papergame era desenvolvido por alguém que tinha facilidade de construir esses tipos de desenho, e, necessariamente, não requeria um grau elevado de técnica, contudo, quanto melhor elaborado mais atrativo seria. Os temas dos jogos eram diversos, e a grande maioria, tinha alguma similaridade com os de videogame já existentes, onde a principal característica era passar de fase, tais como Sonic, Mario Bros, Kid Chameleon, Castlevania, Sunset Riders e outros.

Entre os meus amigos e colegas de colégio, o primeiro a conceber tal jogo fui Eu, e, não me recordo de nada similar no mercado, ou entre outros garotos. Salvo engano o primeiro jogo foi feito quando cursava a quarta série do primeiro grau, isso por volta do ano de 1992, e o último quando estava na sexta série (1994). Na minha escola, havia Eu e mais dois: Thiago Assis Valentim (Bebeto a Jato) e Frederico Rafael dos Santos (Fred).

O Jogar

Para jogar era necessário o autor do papergame, e, geralmente, um único jogador. Jogar com duas pessoas era considerado um desafio, senão, um martírio, pois havia muita falação e discordância entre os jogadores.

O criador do jogo assumia a responsabilidade por narrar os eventos de acordo com a iniciativa do jogador diante de determinada situação disposta na imagem. A ponta do lápis, de uma caneta ou um pino determinava o local onde o personagem se encontrava no jogo.

Não fazia uso de dados, e nem fez por um longo tempo, depois houve a necessidade de adaptação em função do fator sorte, e também, a ascensão do RPG.

O narrador informava ao jogador todas as ações possíveis que poderiam ser realizadas pelo personagem (Ex.: pular, agachar, correr, socar, atirar, usar item, usar magia, e outros), e, os itens e habilidades especiais que estavam disponíveis, bem como, o que estes últimos poderiam realizar quando utilizados.

O Comércio:

Dificilmente um criador comercializava seus jogos, pois, isso requeria transmitir alguns conhecimentos e segredos, algo que feria o ego. Além da produção que poderia levar semanas e até meses.

Confesso que comercializei dois dos meus jogos (Refúgio 1 e Blek Bets 1), e, sou arrependido de tê-lo feito.

Papergames de Minha Autoria:
- Série Refúgio (1, 2, 3, 4, 5, Estágio Especial 1 e 2)
- Série Blek Bets (1 e 2)
- Série Drácula (1 e 2)
- Batman
- Kid Chameleon (Homônimo ao jogo para Mega Drive, e sem finalização)
- Chakam (Homônimo ao jogo para Mega Drive, sem finalização, e onde somente foram confeccionados 4 de 8 mundos: água, fogo, gelo e cavernas)
- Tartarugas Ninjas 4 e Barf 2*
- Vietn 3**
- Fred em Risco e GG em Perigo***

(*) Os jogos Tartarugas Ninjas 4 e Barf 2 foram desenvolvidos em continuidade a séries criadas inicialmente pelo meu colega de sala Thiago “Bebeto A Jato”. Posteriormente, desenvolvi uma fase especial para o jogo Barf 2, a qual denominei Missão Selva.

(**) O jogo Vietn 3 foi desenvolvido feito em continuidade a uma série desenvolvida pelo meu colega de sala Fred.

(***) O jogo Fred em Risco e GG em Perigo tem inspiração em um evento real - um conflito de alunos do Centro Educacional Cirandinha -, contudo, nada tão fantasioso quanto o próprio game.

Área de Confronto & A inserção do fator "Sorte".

Com o correr dos anos, surgiu à ideia de projetar uma ilustração melhorada de alguns mestres de fase e de seus respectivos campos de confronto.

Contudo, mais do que uma visão melhorada sobre estes personagens secundários, assim também, foi oportuno inserir uma modalidade de combate mais apurada, na qual os combatentes de utilizavam de outros recursos muito além dos dispostos no respectivo "papergame" de origem. Especificamente, passamos a utilizar com mais frequência o efeito sorte, por meio de conjunto de dados de seis faces.

Os dados definiam as jogadas de iniciativa, teste de habilidade e de dano, tal como em um sistema clássico de RPG, mas de maneira bem simplista.

Implantado inicialmente para os jogos da série Refúgio.




Outros Papergames estão disponíveis no meu acervo de imagens do site DeviantART, no link: http://dionisante.deviantart.com/gallery/36384066

segunda-feira, 26 de março de 2012

RPG: Aventuras em Yrth - Bodas de Arcádia - Ellondar Oelundree, A Dríade

Natural da Grande Floresta
Nascido sobre o signo de Aries.
Ofício: Arcana


Certa vez nas proximidades da Grande Floresta, uma aveleira com pouco mais de cem primaveras, chamada Ellondar Oelundree, recebeu uma dádiva do Eterno, em função do perdão concebido a sua família élfica e da sua generosa contribuição para com o bosque onde habitava – Oelundree.

A semente de Ellondar foi concebida por um grupo de Dríades de presente de casamento a rainha élfica Quawin Dreea para que a mesma conseguisse, com o devido sacrifício, compensar um inadvertido erro do passado contra outra aveleira, a qual a monarca tirou a vida fazendo cladestinamente uso da espada de seu pai.

Ilustração 01: Ellondar Oelundree, A Dríade, filha dos soberanos élficos Waldegard Oeluns e Quawin Dreea.

A princípio Quawin julgou que apenas o fato de plantar, regar, e conversar ao longo de algumas horas por dia com Ellondar fosse suficiente para reparar seu erro, no entanto, o tempo passou e com ele, a majestade daquela comunidade élfica percebeu que somente aquele gesto não estava sendo o suficiente, pois, a planta não brotava. E, para agravo da situação, o desejo dos líderes daquela comunidade perante o Eterno não estava sendo ouvido, pois, durante três anos eles tentavam sem hesito conceber uma criança.

Havia uma maldição sobre a família real, e somente a Rainha poderia retirá-la.

Quawin como uma destemida e virtuosa Alta Elfa da Floresta se embrenhou nas profundezas da Grande Floresta onde tentou buscar orientação junto às dríades que lhe entregaram a semente de Ellondar, mas, ela não foi bem recebida. Aqueles seres da natureza ignoraram a sua presença. A Rainha saiu de lá desolada, e somente não sucumbiu à morte por amor ao Rei.

Ilustração 02: Rainha Élfica Quawin Dreea, mãe de Ellondar.

O Rei Waldegard Oeluns, ao acolher sua rainha de uma fracassada missão, buscou orientação junto às outras comunidades élficas da região, e por meio do ancião de uma delas, soube de um exercício que consistia em regar a planta com lágrimas verdadeiras, súplicas de perdão e devoção por tempo indeterminado. Por fim, este mesmo nobre disse em tom imperativo e claro para aquele rei élfico:


- Enquanto vocês não aceitarem a semente como uma filha presenteada pelo próprio Eterno, o que mais poderão esperar dele?

Ilustração 03: Rei Élfico Wldegard Oeluns, compreendeu o verdadeiro presente do Eterno para sua vida.

Aquilo calou por vez todos os questionamentos que assombravam os pensamentos do rei Waldegard que retornou o mais breve possível para junto de sua amada. Ele por sua vez estava repleto de uma felicidade desmedida e facilmente transmissível. E chegando a sua comunidade não tardou em ir ao encontro de sua a rainha, que estava deitada sobre o chão, imunda em meio ao lamaçal que se formou a sua volta, chorando copiosamente sobre o solo onde Ellondar estava enterrada.

O rei Waldegard ao proferir as sábias palavras do ancião para a sua amada, percebeu tempos depois como o semblante da mesma mudou totalmente ao compreender também aquele mistério do Eterno. As lágrimas de tristeza e dor se converteram em sentimentos de plena alegria, satisfação e amor. Quando essas primeiras lágrimas tocaram o solo, um pequeno tremor se sucedeu por todo reinado de élfico de Oelundree. Os soberanos se colocaram deitados com os ouvidos postos no chão, e ouviram naquele momento, em tom nítido e perfeito, a batida de um coração.

Uma grande festividade se estendeu por cerca de três meses para celebrar o nascimento de Ellondar, a primogênita dos monarcas de Oelundree. A comunidade liderada pelos seus pais élficos possuía aproximadamente cerca de setenta membros naquele tempo.

Desde muito nova Ellondar conversava com seus pais, a princípio algo ininteligível, e, por volta de sua quinta primavera ela tornara-se muito falante (comunicativa). Ela foi criada como uma filha muito amada pelos monarcas Waldegard e Quawin, e estes a educaram tal como um membro da comunidade élfica. Instruíram-na nos caminhos da magia que cabiam ao povo de Oelundree (Animais, Alimentos, Terra), a cultura, os costumes, a política, a crença, o habitat e a ecologia. Embora, a ela não pudessem ser ensinadas perícias físicas em sua plenitude, muitos conceitos lhe foram apresentados, pois, o casal acreditava que chegaria o dia em que sua filha romperia a casca da natureza que o Eterno havia lhe imposto, tal como uma Dríade.

Ellondar adorava ouvir sua mãe cantar, sobretudo, para ela. A rainha élfica possuía uma voz sublime, cuja capacidade de realizar milagres era conhecida por muitos. Rumores entre as comunidades élficas falavam que a mesma poderia diluir conflitos, acalmar tormentas, dissipar tempestades, fazer germinar plantas em solo infértil, e jorrar água pura de rochas.

Quando foi por volta da décima quinta primavera de Ellondar, a família soberana de Oelundree foi abençoada mais uma vez pelo Eterno, e agora uma criança legitimamente élfica foi concebida, a qual denominaram Hellion. Quawin, apesar de sempre acompanhada de amigas amas, ficou com a sua atenção quase toda voltada para este pequenino.

O coração de Ellondar estava prestes a se embrutecer de rancor/ciúmes pelo seu irmão élfico, foi quando então seu pai percebeu aquele sentimento ruim emanado do silêncio e dos gestos de sua primogênita, e resolveu agir. Convidou uma dríade chamada Gueen-ha para fazer companhia a sua filha, e o mais importante, para instruí-la nos conhecimentos desta amistosa e misteriosa raça aliada dos Elfos das Florestas.

Gueen-ha era oriunda de um carvalho de ficava aos pés de uma pequena montanha não muito longe de Oelundree, próxima a uma trilha selvagem, por onde um córrego de águas mansas e cristalinas acolhia a passagem de errantes viajantes. Ela devia ter cerca de cem anos a mais que Ellondar. Conseguia assumir a forma humanoide de uma belíssima mulher de cabelos verde-água, a pele alva, que encantava a todos que a vislumbravam seminua em seu caminhar quase dançante. Parecia sempre estar feliz e de bem com a vida, esbanjando bom-humor.

Para muitas das queixas da jovem dríade, Gueen-ha já não tinha a paciência de outrora, e sempre respondia quando estava no seu limite: “A tempestade veio, e a folha levou”.

Ilustração 04: Gueen-ha, a Dríade instrutora de Ellondar.

Gueen-ha explicou a Ellondar muitas coisas sobre a cultura, o habitat, a ecologia, a crença e a sociedade das dríades, e que por sinal, chamou a atenção de sua aluna quando lhe foi explicado que apesar de serem da mesma raça, assim como os elfos, elas também eram dividas em sub-raças. No caso de Ellondar, esta era uma Hamadríade, ao contrário de sua tutora, que era uma autentica dríade. A mestra lhe instruiu ainda nos círculos das magias voltadas para as plantas da qual detinha admirável domínio, e algumas de cura e controle do corpo, que ela conseguiu aventurando-se amorosamente com um elfo arcano em um tempo remoto.

O tempo passou, e aquele sentimento que Ellondar sentia pelo seu irmão élfico Hellion tomou outra dimensão. Apesar do laço de fraternidade que os unia, a mesma pressentia que por aquele jovem havia algo mais que lhe fazia estremecer o coração quando o mesmo a tocava ou se deitava sobre a sua sombra para conversarem por horas a fio. Um sentimento de ciúme começou a consumi-la quando ela passou a perceber ou fantasiar no olhar de outras elfas uma espécie de desejo lascivo por ele.

Ellondar não aguentava mais ter que esperar para ser abençoada pelo Eterno, e assim, adquirir a forma física com a qual sua mestra e outras dríades caminhavam entre os demais seres, e com estes últimos, interagia.

Anos mais tarde, Ellondar ao completar sua centésima primavera foi abençoada com a dádiva do Eterno de poder assumir a forma física feminina de uma semi-humana élfica. Uma criatura de raríssima beleza, que assim como as dríades tinha a capacidade de transmutar os tons de pele, cabelos e olhos de acordo com as estações do ano ou a floresta/Selva em que se localizavam – uma espécie de camuflagem natural. Aquilo deixou a todos repleto de felicidade, exceto sua mestra – Gueen-ha -, que se sentiu um pouco roída por dentro.

Ilustração 05: Hellion Oelundree, irmão élfico de Ellondar.

Qwawin e as demais amas que serviam a corte de Oelundree buscaram fazer de Ellondar a mais completa princesa. Não perderam tempo em seguir com muitos dos ensinamentos que até então só haviam transmitido em teoria. A princípio a dríade se mostrou desajeitada, tal como uma criança no início de sua vida, contudo, passado o tempo necessário, veio o domínio sobre o equilíbrio e o desenvolver de uma coordenação plena, e, tão logo, a mesma se apresentou como uma refinada elfa, assim como também, uma prodigiosa combatente.

Quando Waldegard, pai de Ellondar, assistiu-a em treinamento com os soldados da corte, não pôde deixar de comentar ao término do mesmo, de que a agilidade e a beleza dos movimentos eram heranças indubitáveis de Flor de Séqua – Título recebido pela rainha Quawin quando a mesma era uma Alta Elfa da corte de Dreea.

Hellion, assim como os demais, ficou encantado com a beleza de Ellondar. Efeito este que a dríade desejou no fundo de seu âmago e em suas preces mais profundas à divindade suprema. Algo mudou na maneira em que eles se entreolhavam, e na profundidade do sentimento existente entre os dois, algo muito além de laços fraternais. Não tardou para que isso fosse consumido cladestinamente em atos de lasciva e tórrida paixão.

Nas festividades do Solstício de Verão, o rei e a rainha de Oelundree convidaram a shide Scamini Dreea, uma Alta Elfa da Corte do Grão-Rei Eldemer da Grande Floresta, para participar do evento, e também amadrinhar seu filho. Esta honorável elfa era prima de Quawin, e havia lutado com ambos durante algumas batalhas, sobretudo, naquelas em que se abateram nos reinados de Oeluns e de Dreea.

Servir a corte do Grão-Rei élfico era uma grande dádiva, e negar tal fardo era tido como um crime extraordinário, onde a honra e a nobreza da linhagem tornavam-se subjugadas, e o criminoso era punido com o banimento e ostracismo da comunidade com a Marca da Insolência. Portanto, não tardou para que Scamini percebesse em Hellion os atributos necessários para amadrinhá-lo, e fazer dele um membro da Corte de Eldemer. Essa também foi à única maneira encontrada pelos pais de Ellondar para dar fim à relação amorosa entre os dois irmãos, cujo conhecimento por outros só lhes traria desdouro.

Ilustração 06: Scamini Dreea, shide da Corte do Grão-Rei Eldemer, prima de Quawin, e madrinha do príncipe Hellion.

A dríade esperou aflita, e também, paciente ao longo de semanas, meses e anos até que o seu irmão e amante pudesse retornar para a sua comunidade. Hellion, juntamente com outros dois amigos naquela ocasião, foram amadrinhados por Scamini Dreea para a Corte do Grão-Rei Eldemer.

Para Ellondar algo de estranho ocorreu quando os amigos retornaram tempos mais tarde para uma visita aos seus familiares, e Hellion não, e a única notícia que se teve foi de que estava tudo bem, e que logo retornaria para sua família. Contudo, anos mais se passaram e as preces da dríade não foram ouvidas. Uma vez ou outra, ela recebia notícia por intermédio de outras plantas, animais e outros seres da natureza com os quais podia se comunicar.

O Rei e a Rainha de Oelundree não conseguiam perceber fim naquele sentimento de Ellondar por Hellion, e isso era demasiadamente temeroso.

Ellondar angustiada foi aconselhar-se com a sua amiga e mestra sobre aquele sentimento que a consumia. Contudo, desde o envolvimento da jovem dríade com o irmão, algo, entre as duas havia mudado.

Gueen-ha havia se distanciado de Ellondar, pois, constantemente as duas estavam a se desentender, e à medida que aquilo crescia, as palavras da princesa feriam mais e mais o seu coração, que também nutria um amor platônico pelo príncipe, e que somente não levava a frente por sentir remorso de sua discípula.

Na ocasião em que Gueen-ha e Ellondar conversaram mais uma vez, não tardou para que uma nova discursão ocorresse. No entanto, desta vez a mestra não ouviu calada a sua aluna, e tão pouco se ateve a aconselhamentos, pois, os gênios estavam exacerbados entre as duas. A princesa ouviu tudo que estava entalado na garganta de sua amiga, coisas das quais a machucaram profundamente, muito em função do orgulho da mais nova. Um pedregulho composto de amargas verdades selou o fim da amizade entre as duas dríades.

Passado algum tempo, uma boa notícia chegou aos ouvidos de Ellondar: o príncipe estava retornando! Seu coração se inflamou de esperança.

Antes que Hellion pudesse chegar até a comunidade de Oelundree – que estava à cerca de um dia de viagem -, ele resolveu dar uma parada e acampar nos domínios de Gueen-ha. A dríade surgiu para lhe fazer companhia munida de uma jarra de deleitosa bebida, enquanto conversavam algo de curioso aconteceu em seu intimo, e, logo ele se viu afagado nos braços dela.

Gueen-ha não se demorou naquilo que há tanto tempo a sua mente e o seu corpo desejavam concupiscentemente. Hellion se entregou aos braços e sentimento daquela dríade de quem por vezes se encantou quando ainda bem jovem, enquanto furtivamente a vislumbrava ensinando a sua irmã, ou se banhando em quedas de águas cristalinas. A noite se fez dia, e o dia se fez noite. Ambos passaram longos dias entregues aquela paixão aparentemente derradeira, e magicamente possível graças ao poderoso encanto que estes seres exercem sobre aqueles a quem desejam. O sentimento de culpa ou remorso para com a aluna já não havia mais.

Ellondar começou por conta própria uma busca ao príncipe, e ao chegar às proximidades da morada da antiga mestra teve uma visão calamitosa daquilo que foi o seu pior pesadelo: Gueen-ha e Hellion eram amantes! Um turbilhão de coisas assombrosas invadiu a sua mente naquele fatídico momento. Pensamentos violentos, mas ao mesmo tempo antagônicos, permeavam aquele campo insólito. Por fim, tendo o espírito tomado por um acesso de fúria vertiginosa e selvagem, ela os assassinou de maneira deliberadamente fria as margens do riacho.

A dríade percebeu o crime que havia cometido contra os seres a quem mais amava se debandou para o mais longe possível de sua antiga comunidade. No entanto, a distância da sua árvore a fez sucumbir de exaustão.

A marcha pesada de uma grande infantaria a fez recobrar a consciência. Escondida, Ellondar observou soldados Orcs bem armadurados caminhando rumo ao bosque de Oelundree. Temerosa sobre tudo o que havia acontecido, tendo as roupas ainda banhadas parcialmente com o sangue de seu irmão e de sua mestra, ela esperou a passagem de seus inimigos para se prostrar de joelhos clamando ao poder do Eterno para que nada de mal acontecesse aos seus pais e familiares, porém, não tardou para que sentisse e avistasse fumaça, e, seguidamente, gritos.

A dríade com muito receio se viu compelida a retornar para sua comunidade, e, assim, tentar ajuda-los de alguma maneira. Contudo, Ellondar chegou tardiamente. O reino de seus pais ardia em chamas, enquanto os elfos se digladiavam com os Orcs. Nesse momento ela pavorosamente se lembrou da responsabilidade que tinha sobre muitas coisas ali, dentre elas, os sinais de vigilância por meio das plantas e dos animais. Em meio aquele confronto ela se viu desnorteada com a visão de inúmeros cadáveres de seu povo lançados ao chão. Subitamente mais um pensamento trágico lhe veio à mente, pois tantos que ali estavam jazidos lhe foram oportuno em algum momento de sua vida conversar, sorrir, compartilhar experiências, ajudar, e, em fim, agora somente mórbidas lembranças.

Antes que ela pudesse tentar fazer algo, Ellondar sentiu a pele arder. Sabia que a sua árvore corria risco de vida. Durante o percurso até a casa de seus pais, percebeu alguém espreita-la, contudo, não conseguir identificar quem ou o quê era. A sua mente mal conseguia ater-se aos confrontos que aconteciam diante de seus olhos. Aquelas criaturas lutavam como se estivessem possuídas por algo maligno, pois, eram demasiadamente sanguinários e mortais em suas investidas.

Ellondar encontrou próxima a sua árvore, com alguns focos de chamas em volta, a sua mãe caída com um vestígio de vida, aparentemente ela havia se arrastado por um percurso significativo, além de ter sofrido ataques viscerais. Antes que a dríade pudesse dizer algo para a rainha, a mesma a silenciou:

- Não te preocupa minha amada filha... Está é a vontade do Eterno... Obrigada por tudo... Está vida foi plena, renasceria nela quantas vezes mais se fosse possível por tantas dádivas alcançadas... – Quawin morre acolhida nos braços de sua filha.

Ellondar com a sua mãe no colo, abraçada para bem junto dela, pranteou copiosamente por tamanha desgraça recaída sobre a sua vida e de todos aqueles a quem tanto amava. No fim, clamou ao Eterno que tudo lhe fosse tirado, sobretudo, as lembranças dessa vida para não sofrer mais.

As chamas se alastraram por todo lugar, atingindo a árvore de aveleira a qual Ellondar era ligada. O corpo da dríade entrou em combustão enquanto mantinha o pensamento firme naquilo que era o seu mais poderoso desejo, e bem abraçado ao de sua mãe.

A dríade sentiu seu corpo romper em penosas chamas. Uma dor visceral se alastrou de sua cabeça aos pés de forma inimaginável. Os gritos de agonia ecoados por ela tomaram o céu, juntamente com os demais de seu povo em um funesto coro... Até que a mesma caiu desacordada ao chão.

(...)

Ela recobrou a consciência, abriu os olhos, estava com a boca seca, com fome e com um gosto amargo nos lábios... Contudo, ela era uma elfa, que desconhecia seu nome, não tinha lembranças, e estava completamente perdida em meio a um cenário de destruição descomunal, com inúmeros focos de chamas. Um grande incêndio havia se alastrado por aquele lugar.

Ela ficou por muito tempo naquele estado catatônico deitada ao chão, tentando de alguma forma recobrar alguma memória que pudesse norteá-la para onde se dirigir, mas a manhã se foi e logo veio o entardecer. Ela tomou coragem e se levantou em meio a um enorme grupo de criaturas chamuscadas a se lamentar por perdas das quais desconhecia. Uma cena demasiadamente mórbida e surreal,

Ilustração 07: Ellondar, A Dríade, transmutada na forma de uma elfa como dádiva do Eterno.

Ela se assustou quando um grupo de moribundos voltou-se para ela apontando o dedo em sua direção, com seus rostos contorcidos em dor e tentou agarra-la, acusando-a de irresponsável, fraca, e pérfida. No entanto, nada lhe soava intimo em relação àquelas assombrações, somente um medo crescente que a fez com que saísse daquele lugar o quanto antes. Correu desesperadamente e como se a sua vida dependesse daquilo.

Na sua fuga daquela região inóspita, a jovem elfa aos poucos foi se lembrando de algumas coisas em relação a aprendizados mágicos. Verbetes e signos mágicos que lhe surgiam à mente em uma vultosa oscilação, que lhe provocavam fortes dores de cabeça e desequilíbrio. Por muitas vezes teve que parar e descansar, e cada vez que o fazia, sentia que o tempo lhe corria a uma maneira diferente.

A elfa em sua andança a esmo acabou por infelicidade encontrando um grupo de Orcs que mantinham cativos alguns humanos, utilizando-os na exploração de minério e outros serviços forçados. Ela foi conduzida até o acampamento deles, onde daqui algum tempo seria sacrificada e oferecida a uma grande divindade daquela raça. Em sua mente: medo, ansiedade, e confusão.